segunda-feira, 20 de maio de 2013

Lá se foi mais um Pirola

Foi difícil particularmente a mim despedir-me do meu pai essa semana.
Depois de muita luta entre idas e vindas a hospitais, ele finalmente partiu para o descanso na Casa do Pai.

Como pastor, já havia sido duro celebrar o casamento da minha primeira filha, Rebeca, tal foi a emoção e no Sábado último, o despedir-me do meu velho. Tive de juntar tudo com as responsabilidades de cuidar dos vivos e compartilhar a Palavra de Deus, diante do que, todos se curvam, ainda que limitada muitas vezes pela fraqueza do seu porta-voz.

Há já algum tempo, o meu velho tinha descansado das suas lutas interiores com relação a alguns que lhe eram caros pela via da reconciliação, do pedido de perdão de ambas as partes e do cada vez mais visível, amansar do seu gênio difícil...

Diante do seu leito, pude chorar, abraçá-lo como podia e deixavam os aparelhos. Falei-lhe de muita coisa coletada entre as que me lembrei e as que emoção deixava. Abri mão da minha vez de entrar na UTI onde ele jazia aos meus irmãos e sobrinhos, já que sempre nos falávamos por telefone ou nas visitas à sua casa, mais do que qualquer um desses e só apanhei-o já inconsciente. 

Foi muito forte notar aquela parede tremenda entre a vida e a inevitabilidade da morte. Palavra que não consegui me lembrar de nenhuma coisa triste na nossa relação pai e filho. Não que não existiram, mas nada também que não tenha passado pelo lavar do sangue do Cordeiro que nos possibilita a perdoar.

Posso dizer que o velho morreu em paz, embalado pelo carinho dos seus e a absolvição dos pecados - e não foram poucos. Nos seus oitenta anos, comemorou a festa em meio a todos os filhos e netos e viu ainda o seu último, Caio, e a ele segurou ao colo, abençoado e afirmado poder partir por tê-lo visto. 

Em nenhum momento da sua vida notei um só medo de partir, de cruzar o tal rio.

Histórias ficaram muitas. O velho era pródigo pela sua tolerância zero com a burrice (totalmente gozadora) e em colecionar historias tornadas lendas em muitas circunstâncias.

Suas últimas palavras - sempre nada políticamente corretas ou educadas - ao ser solicitado pela médica que engolisse uma sonda, para ajudar que ela enfiasse-lhe boca abaixo, foram: "Doutora, porque não enfia-o na sua mãe?!". Esse era o "dotô" Pirola, graduado em física, odontologia, direito e pescaria.

Eu e ele tínhamos um hábito de rogar pragas um no outro quando nós telefonávamos para contar o que estávamos comendo (sempre uma iguaria). Era um tal de "sabe o que estou comendo agora?" e a resposta diante da descrição o mais fiel possível do prato: "Isso vai dar-te uma caganeira...". 

Sempre amou a obra de Deus. Apoiou-me sempre nas missões e no abrigo de missionários que da nossa casa tiveram abrigo e apoio.

Errou muito, amou muito e aprendeu a duras penas a respeitar o outro e as nossas dores de filhos.

No seu leito, sussurrei-lhe ao ouvido: "Velho, os seus pecados estão perdoados, vá em paz para Cristo!", lembrando-me da Palavra do Senhor: "Aqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos", em João 20:23.

E partiu então o meu velho, para cumprir a determinação da trajetória humana - O pó volte à terra e o espírito a Deus que o deu.

A Pirolada ficou mais pobre, mas as histórias de família, mais ricas, de humor e de saudade.

Um comentário:

Danilo Fernandes disse...

Que lindo momento Rubis!