segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Irã estará livre da web. E o povo do Irã, ficará livre do Irã?

Deu na mídia ontem: O Irã criará internet própria, desligada da world wide web.

Pergunto-me e agora?

Essa notícia suscitou imensas discussões sobre o tema. A maioria, pelo que vi nos comentários de leitores nos principais canais de notícias do nosso país, comemorava o fato, inclusive afirmando-se invejosa da decisão do governo iraniano de "verem-se livres da influência cultural e de informações dos EUA e de Israel".

Então vamos imaginar o mesmo por cá. Que tal?

Um país totalmente mergulhado em si mesmo - e desligado da rede mundial de computadores.

Que tal os Católicos no poder? Ou os Evangélicos? Ou o PT ou qualquer outro grupo político com a sua "verdade única"?
E mais: Polícia da religião (como há na Pérsia)?
A "informação oficial de governo" que aqui não existem gays? Ou pecadores?
Ou o contrário, que aqui todo mundo é gay?
Ou a proibição de qualquer reunião sem a autorização do estado?
Ou a proibição de que nenhuma mulher pudesse sair desacompanhada sob risco de ser chicoteada ou presa?

Cá entre nós, continuo a apoiar um pilar da Reforma Protestante - a do livre-exame das escrituras ao invés da tutela oficial, qualquer que seja o oficial, e do seu mote "Reformar sempre" e ainda assino a declaração de Millôr Fernandes de saudosa memória: "Prefiro um mau presidente a um bom ditador".

E tenho dito: Coitado do povo iraniano. 

domingo, 23 de setembro de 2012

Repentezinho universal! (baseado em Atos 19, 13-17)

















Conforme a igreja ia crescendo
Há muito tempo atrás
Em meio a doente, agoniado e incapaz
Ia Paulo arrasando
Com milagres, curas e sinais

Até que no rastro do sucesso
Uns judeus malandros, eu confesso,
Cheios de ganância fizeram afronta
Angariando grana a grande monta
Confundiam os pobres coitados
Curando por uns bons trocados (e sal grosso)
Todo aflito, pelo chifrudo dominado

Eram sete os santos do pau-ôco
Os filhos, de um tal Ceva, família baixaria,
A fazer corrente, a vender porcaria
A todo coitado andando em treva
Pensando eles levar vantagem
vendendo pão por lavagem
e a construir um reino que
apesar de universal, não era
nem de Deus, nem do céu
mas de baixo, do cão e do mal

Prosperaram, enrricaram
Até que os negócios emperraram
Foi justo quando apareceu-lhes o cão
Mais feio que esfregar olho com limão
Furioso e a deitar fumo veio o bicho
De quem não dá pra esconder o rabicho
A cobrar pela desfeita
-“Venham cá seus safados,
Não se façam de rogados!
Nem pintarem-se de desgraçados
Não adianta culpar a globo
Porque Deus nunca foi bobo
E cada um tem, afinal o que merece
Glória ou condenação mais dia menos dia aparece
Escutem só engraçadinhos
De paletó e gravata embaladinhos
Não fujam que hoje o negócio é comigo
Não olhem para os lados a coisa é com o seu umbigo
Se tem uma coisa que não tolero
É zombarem do povo com lero-lero
Eu até aceito de cristão incoerência,
Mas nem de longe concorrência”.

E o cacete que lhes aplicou foi tão tremendo
No dia em que a casa caiu
Que em toda parte se ficou sabendo
Pra aquele que da cruz, um dia se riu.

*(Se lerem com sotaque nordestino, mió ainda!)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A outra face da Graça

Aprendemos desde pequenos, que graça é um favor imerecido. 

Correto. Mas ainda não de todo.

Tratando-se da Graça de Deus, trazida a nós no seu culminar - no favor de Cristo, na plenitude dos tempos, na entrega do Unigênito Filho de Deus para resolver a nossa questão - existe algo a mais na sua definição.

Se graça fosse somente um favor ofertado a quem não merece, o diabo e seus demônios estariam igualmente debaixo de graça, mas isso não é verdade. 

Pensemos bem: Se Deus pode destruir o inimigo, o aproveitador, o acusador das nossas almas e mentes, e não o faz, quer dizer que Ele não o está premiando, beneficiando-o de maneira nenhuma. Há um plano que às vezes nos escapa à razão. Deus que não tem absolutamente no diabo e seus anjos, inimigos à Sua altura, não destruindo-os, não põe-nos debaixo de um favor imerecido, como premia aos Seus filhos. Se assim fosse, teríamos de os expulsar pedindo um favor aos "colegas" ou aos irmãos. 

Já pensou? 

"Desculpem, xarás, será que me podiam dar a gentileza de irem um pouco pra lá, saindo deste corpo que não lhes pertence? Se fazem favor, companheiros da graça..."

A graça aplicada a eles, não teria um caráter de favorecimento, de beneficiá-los. Ela os poupa sim, para que se cumpra o propósito de Deus. Ela deve trazer a eles o medo, o pavor, certos que devem estar, do final que lhes está preparado.

A graça de Cristo em nós vai além. A graça em nós aponta para o amor, para a identidade que temos em Deus. Não é o que fizemos ou possamos fazer, nem o que não fizemos, ou atos nossos de merecimento, mas o que Ele fez por graça, revelando-nos outra possibilidade de vida, outra identidade; antes forasteiros, afastados, agora, um com Ele, estranhos feito filhos por adoção por graça, um benefício Dele para cada um de nós. A graça nos livra da lei perversa da meritocracia, do toma-lá-dá-cá (como aliás pregam os que querem assassinar tamanha verdade e doutrina). Ela sempre revela o amor de quem a deu e incentiva o amor e a gratidão àquele que dela se beneficia.

E mais: tem ainda um caráter ensinador. 

É pela graça que o Espírito Santo trabalha em nós, edificando em cada um que dela bebe, o caráter de Cristo, despertando em nós a gratidão - que nos constrange, que nos força, que nos obriga (2 Coríntios 5:14) a servirmos a Ele - não há outro caminho a seguir

É o que afirma Paulo a Tito:

“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente.” (Tito 2.11-12)

É isso. Deus age em nós perdoando-nos, não levando em conta os nossos erros, não porque tolera a bagunça, o erro... deixando o barco correr frouxo. Mas assim age, porque tem um propósito maior - o nosso crescimento.
E não para que habitemos o céu amanhã, mas vivamos hoje, de maneira sensata, justa e pia (da maneira de Deus!).

Amém! Trabalhe em mim, Senhor! Deixe a Sua graça agir em mim.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

É pra essa hora que viemos

"Agora meu coração está perturbado, e o que direi? Pai, salva-me desta hora? Não; eu vim exatamente para isto, para esta hora." João 12:27

É incrível como temos sempre um coração descompassado ao relógio da vida. 

Como cristão, eu emendaria, ao invés disso:... Descompassado ao tempo de Deus.

Há muito entendo que os acasos não existem para um Deus eterno e que "tudo fez Ele formoso a seu tempo", Alguém que estabeleceu a história antes que ela existisse para a humanidade, designando-nos cada um de nós, desde antes da fundação do mundo.

Então, porque esse descompasso?

Teimamos em nos afligir com as ideias e pensamentos como: Porque não cheguei mais cedo? Porque não deixei de vir? Porque me adiantei? E se isso tivesse acontecido? E se aquilo fosse feito pra prevenir?...

Prefiro nessas horas que teimam em vir sempre no descompasso da nossa vontade, ou do prazer, me calar - no mínimo - se não tenho forças pra dizer; "Assim seja, Senhor da vida e das bênçãos e das intempéries!"

Muitos, preferem lotar as igrejas parra novenas ou para ofertarem muito papel na tentativa de fugirem; muitos tecem páginas e páginas de teorias e de pretensas formulas mágicas (pretensamente bíblicas) para escaparem do qual não se pode fugir - do "isto", para o qual fomos preparados a vivenciar...

O que Jesus afirmou é que havia propósito no seu momento. Mesmo à despeito da sua vontade carnal, entendendo que em morte não há frutos, sem preço, não há ganho. E ainda preveniu os amigos chegada do momento da sua glorificação (na nossa teologia, nunca associada ao sofrer!).

Nessa declaração, Jesus não deixa margem pras dúvidas e perguntas de uma alma sempre desgovernada e que vai sempre na direção do mais fácil, do menos custoso, do que é doce, ao invés do amargo - Ele sabia que tinha vindo pra aquele momento. Nada havia escapado nem haveria de escapar ao trilho plantado e na estrada aberta pelo Pai. Não houve descuidos. Não houve uma pane qualquer nos controles celestiais. Era pra aquele momento de tortura e de dor que Ele havia vindo.

Sabendo que nada escapa à ciência do Pai de amor, que "nenhum fio de cabelo da nossa cabeça cai sem o Seu consentimento" e que devemos "dar graças em todas as coisas porque há um propósito nisso", porquê nos afligirmos com os acidentes e experiência desgostosas? Porque ainda achamos que a vida com Deus é um mar de tranquilidade pontuado por pequenas intempéries? Pois a verdade aponta pro oposto. Viver dói.

Que O Eterno nos revista de paz e confiança nessas horas. E que talvez ainda digamos: "Tudo bem, foi pra essa hora que viemos!"

PS: Falando nisso tudo, soube que ontem à noite, depois de quase 3 meses inteiros de seca na região Centro Oeste do país, onde vivem meus filhos e os dois netos, finalmente caiu uma boa chuva. 

Minha filha e o meu neto mais velho, Davizinho de 6 anos oravam, como sempre fazem antes de dormirem, agradecendo a Deus pela água. Ao terminarem, o pequeno disse à mãe:  "Mamãe, não é bom saber que mesmo no tempo sem chuvas, Jesus sabia muito bem o que estava fazendo?!"
Gostei de saber que, mesmo ainda muito novo, Davi já sabe que... "Foi pra essa hora - mesmo de seca - que todos viemos. E Deus sabe - sempre - o que faz".

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O exercício do amor ou o show da fé?

Sempre me perguntam porque não existem mais milagres como se via no meio dos cristãos.

Falta de fé, falta de oração, falta de ousadia, falta de jejum, respondem muitos dentre outras respostas para questão tão intrigante.

Noves-fora os tempos em que vivemos hoje em que nos é mais fácil (e rápido) tomar um remediozinho ao invés de pedirmos e esperarmos pela providencia divina, e da frieza espiritual do gênero humano, creio que o buraco é bem mais embaixo.

Arrisco-me a dizer que o que nos tem faltado é falta de amor. E, por isso mesmo, acho que os céus têm retardado alguns ditos milagres, para que nos exercitemos não em showzinhos particulares e exercícios teatrais (pra não dizer circenses) de cura nos nossos serviços e campanhas de fé e milagres. Afinal, se é pra curar, porque é que os doentes têm de vir às igrejas e não os ditos ministradores de cura irem aos hospitais e centros de terapia fazer o que devia ser a nossa obrigação cristã?

Porque não plantam eles à saída dos lugares sabidamente cheios de desesperados e sofredores de toda maleita?

A ordem não era pra que fôssemos até eles, de casa em casa curando os que sofrem? Então para que esses teatros do absurdo, onde as pretensas curas são a atração principal?

Acho mesmo que Deus deseja que nos exercitemos em outra prática. Na do cuidado aos sofredores, do alívio aos cansados, na nossa oferta para limpar-lhes as chagas, para que os carreguemos ao colo, que demos-lhes nós os banhos, que ocupemos-nos das suas roupas, e das suas refeições (até que lhes demos à boca!)...

Parece-me que hoje não queremos o benefício dos que sofrem, mas apenas a sua utilização como atrações. Queremos-lhes para os espetáculos (deprimentes, como os que assisto nas TVs por exemplo), num show que pretende reforçar a nossa necessidade de crermos - não a deles.

Cansei, como pastor, de ouvir pedidos de oração por enfermos, não porque via no que intercedia, o amor sincero e a dor tomada emprestada de outro, mas a intenção de não ser mais incomodado pelo doente e problemático.

Já não choramos a dor do outro, já não nos sensibilizamos pela necessidade alheia... Já não mudamos a agenda pelas suas necessidades. Já não nos desviamos do caminho para socorrer... Queremos é transferir a responsabilidade pra Deus. Queremos é nos vermos livres de trabalho.

Se o amor é o caminho sobremodo excelente, acho que não precisamos de mais shows, mas de mais trabalho...


"Curai os enfermos, limpai os leprosos..." Mt 10:8

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A mulher do pastor e os funerais

Ela nunca se dera bem em funerais.

Apesar de piedosa e de um coração solidário com a dor dos outros, chegara a prometer ao marido que só iria mesmo em outra cerimônia de enterro quando fosse a sua vez. E ainda assim, carregada!

O marido já havia aprendido a duras penas que, apesar da tentação e da obrigação de dizer algo a um enlutado parente,  que nem sempre se lembra do que lhe disseram naquela hora de dor, deve-se aprender com Jesus, quando diante de situação semelhante, simplesmente chorou. Emprestou o seu melhor – exteriorizou sentindo a dor do que perdeu alguém, em lágrimas como todo ser humano diante da inevitabilidade e crueldade da morte.
Mas não. Ela sentia uma compulsão por dizer alguma coisa, constrangida, quem sabe pelo silêncio da hora.

Estava pensando nessas coisas, quando o avião que levantara voo há menos de dois minutos do aeroporto de Heathrow em Londres, começou a balançar mais do que de costume e como apendera, experiente que era, em suas viagens, como esposa de missionário, isso haveria de passar.

Conforme o aparelho ganhava altura, aumentava o sacolejo e, lá fora, o temporal que já lhe fizera prever uma viagem longe de ser tranquila.

Olhou do lado, a poltrona colada à sua, e notou que a senhora, companheira de sacolejo chorava copiosamente. Ela, com o seu coração sempre solidário, não aguentou. Mal o avião nivelou, ela pôs-se perto da senhora e disse à aflita passageira: “Não fique assim, isso é normal nessa época, não precisa se afligir” enquanto a mulher chorava ainda mais forte. 

“A senhora está só?” Tentou desviar a conversa.

“Não, estou com a minha irmã”.

“Então, a senhora não quer chamá-la? Não me importo de trocar de lugar com ela, assim quem sabe a senhora se acalma e vê que isso passa num instante”.

“Não posso. Ela está no porão! Estou levando o seu corpo pra enterrar na nossa cidade!"

Mais uma vez, concordara consigo mesma que ela e a morte, definitivamente  - mais até que qualquer pessoa – tinham uma incompatibilidade séria.  Ainda quis fazer teologia, pensando que isso é mesmo algo genético, arrazoou. “Não fomos feitos pra ela”. Foi por culpa do acidente no Éden que ela entrou na nossa história e nos tornamos inimigas, até que Cristo, de uma vez por todas, dela nos livrará, lá na eternidade.

Mas essa história de não dar-se bem com essas situações envolvendo morte, luto e funerais, não parou. 

Todo mundo conta de outra ocasião, quando, numa noite, foram, ela e o marido chamados à saída de um programa com direito a cinema e pipoca, para que fossem até a um velório, para orarem e apoiarem uma senhora que perdera o pai.

Depois de cerca de uma hora numa sala apertadíssima, 2X2 metros no Cemitério de Sacavém, próximo à Lisboa, em Portugal onde serviam como missionários, lá passaram ouvindo casos e mais casos do corpo que jazia entre o casal, outrora um cristão fiel e dedicado e uns quatro de seus familiares.

Na hora de partir, o pastor fez o seu melhor para consolar os enlutados, cumprimentando-os com aperto de mão, esgueirando-se entre as paredes muito próximas, e passando os braços sobre o corpo, estendido, num caixão que se abria totalmente,  formando uma espécie de mesa, sem paredes laterais.

Assim fazendo, saiu deixando a esposa. Muito solidária e desajeitada com o pouco espaço, repete os gestos do marido, cumprimenta a todos: “Boa noite!”, “Boa noite!” e... debruçando-se sobre o defunto, com a mão a afagar-lhe os cabelos daquele que por instantes se tornara um conhecido próximo pelas narrativas de experiências e histórias, deixa um “Boa noi...”, para o espanto de todos e as gargalhadas contidas do marido que teve de correr pela porta a fora.

Essa história serviu, conforme testemunhado pelos poucos que ali estavam, dias depois na igreja, de como os brasileiros são carinhosos, pois até despedir-se do defunto como se faz a um acamado a esposa do pastor fez naquela noite de pranto.

Mas o pior estava ainda por vir.

Outra manhã fria de fevereiro (um dos piores meses do inverno europeu!), foi o casal chamado para oficializar a cerimônia de cremação de um senhor, pai e sogro de um casal muito querido, Eduardo e Mitú Porfírio, no Cemitério Alto de São João em Lisboa.

Imaginem a cena: Alto de São João, chama-se o lugar (aquilo era o topo de um morro!), fevereiro, com direito a muito frio e vento absolutamente impiedoso e cortante para um casal dos trópicos e um espaço com um teto com caramanchão  de flores sem paredes laterais. 

E dá-lhe frio!

Após a pregação, a oração pela família enlutada e a gratidão manifesta a Deus pela vida do falecido, o pastor mais grato ainda por ter chegado ao final sem que as orelhas lhe caíssem do lugar por conta do vento que soprava e sibilava impiedosamente gelado, perguntou ao genro do defunto: 

“Podemos ir agora, não? Estamos esperando mais o quê?”

“Pastor, vamos agora esperar pelas cinzas e nos vamos”.

“Hum,... isso leva o quê? Uns 10, 15 minutos?”...

“De cinquenta minutos a uma hora, pastor!” Sentenciou o genro, o que nenhum daqueles por certo e com certeza o pastor queriam ouvir. 

E dá-lhe frio...

Procurando se ajeitar pra suportar o que nenhum brasileiro que viera do calor do Triângulo Mineiro desejava, notou o pastor que a esposa começa a ficar impaciente.

“Vai dar caca!”, pensou...

Foram-se aguentando, trocando de apoio das pernas, esfregando as mãos vez por outra, quando a esposa, dobrando-se para a filha do morto que postara-se entre ela, o esposo pastor e o marido da enlutada senhora, comenta:

“Que frio, hem, Mitú?”.

“Pois é, querida. Muito mesmo.”

E emendou de pronto:

“Mas em compensação, o seu pai está bem mais quentinho que a gente, né?”

Não será necessário dizer que a plateia dividiu-se entre os que correram para a esquerda e os que foram pela esquerda, seguido pelo genro às gargalhadas.
Nem que a filha do morto, enxugou as lágrimas e fez o que pode para esboçar um sorriso simpático diante de tal comentário.

Desnecessário também será dizer que o pastor, aflito, ainda jura que procurou a Bíblia que usara alguns momentos antes, para socá-la entre os dentes da esposa para impedi-la de dizer mais o que fosse.

E que prometeu nunca mais levá-la a funeral algum. A não ser o dela.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O milagre do aprendiz de pregador americano

Não havia muito tempo que se convertera e já não disfarçava a admiração pelos pregadores da América, daqueles de palco, com direito à performances de saltos, gritos e de gente à cair mediante um soprar ao microfone ou a abanar-lhes sobre a cabeça o paletó.

Ficava maravilhado com a possibilidade de ser usado como imaginava que foram Paulo, Pedro e os demais cristãos dos primeiros anos de cristianismo.

Foi quando a oportunidade aconteceu. Foi convidado para pregar numa grande igreja no subúrbio do Rio.

Comprou o seu melhor terno, aquele dos seus sonhos e digno de um homem de Deus.

Assistiu por dias, DVD de Benny Him, Morris Cerullo e tantos outros. E, sem descuidar-se do principal – a sua consagração – pôs-se a jejuar, a buscar Deus, a tal "unção" e ousadia que imaginava ser necessária para o tal evento.

Buscou com sincera devoção o tal dom de cura,  o favor de Deus para fazer o que lia nos Evangelhos e no livro de Atos.

Queria ser usado com poder. Nada ocupava mais a sua mente e coração.

E foi assim que, deixando o seu lugar, já no lugar mais central da congregação, foi chamado finalmente para ocupar o púlpito.

O lugar estava cheio, com gente apinhada numa sala de culto com talvez, mais de um milhar de fervorosos irmãos, desafiados pela campanha de curas e milagres.

E o pregador estava ali, compenetrado. Suava um bocado, um pouco mais que o resto todo da audiência, não pelo calor fluminense ou pela arquitetura do lugar que impedia maior circulação de ar que o recomendado. Ele estava compenetrado e nervoso. Queria poder. Poder do alto. Poder para curar. Nada tirava-lhe isso do peito.

Foi quando, ainda nas primeiras palavras de saudação, percebeu uma senhora, na primeira fila, diretamente à sua frente, com olhar fixo para o púlpito. Percebeu também como ela tinha pernas excepcionalmente finas e como ela não se levantara nem quando pedira à igreja que se pusesse de pé para a leitura da Bíblia seguida da oração.

Começou a descrever detalhando os primeiros versículos, já lidos instantes atrás, começando o seu sermão, quando incomodado percebia, que seus olhos não conseguiam por muito, desviarem-se da pobre moça que continuava olhando fixamente para onde estava, e de microfone em punho, desafiava a todos a crerem na Palavra que salva, cura e liberta.

Ele aumentava a voz, não bastasse o microfone estridente, como um crente que crê realmente, mas também como aprendera com os seus astros pregadores do hemisfério norte, gesticulando, dando um ar teatral e dramático à prédica. E aquela moça continuava firme, do lugar onde estava, não lhe desgrudando os olhos.

Já não aguentando de ansiedade por ver-se cumprir a promessa que, segundo cria,  milagres acompanhariam os que creem, deu um salto de onde estava e afirmou:
“Irmãos! Deus não vai curar amanhã! Deus não irá curar ao final do culto! Deus não vai curar no final da mensagem! Deus irá curar agoraaaaaaa!”, descendo da plataforma, correndo em direção à pobre senhora de pernas incrivelmente finas e paralisada com olhar fixo de onde a unção, a palavra e o pregador estavam.

Chegando-se à frente da pobre entre gritos de “aleluia, Senhor!”, “Cura, Pai!”, que o enchiam ainda mais de fé e convicção, debruça-se, nariz a nariz, e com o microfone e tudo, grita com o melhor da sua fé e dos seus pulmões:
“Em Nome do Senhor Jesus Cristo,  eu ordeno-te: Levanta e anda!”.

E aconteceu!

Para o espanto de todos, que gritavam e davam aleluias, a pobre senhora de pernas mirradas e de olhar fixo, dá um salto e corre desnorteada pela sala.

No meio de alegria sincera, gritos de regozijo que inundavam a sala, o pregador novato põe, numa fração de segundos o microfone à boca de uma senhora idosa que estava postada ao lado da tal agraciada de pernas secas, enquanto essa ainda corria cambaleante pela casa, e pergunta-lhe:

“Há quanto tempo ela não anda, minha irmã?”

Constrangida a anciã dispara:

“Andar, ela anda, pastor! O problema é que ela é cega!”.

Os anos se passaram, e o pregador, agora mais maduro, tem-se aplicado mais à conhecer as escrituras do que a assistir a DVDs de pregadores.  

* O nome do tal pregador foi omitido e não conto nem sob tortura

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Os templos e o templo

"Quão amáveis são os teus tabernáculos, SENHOR dos Exércitos!
A minha alma está desejosa, e desfalece pelos átrios do SENHOR; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo.
Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, onde ponha seus filhos, até mesmo nos teus altares, SENHOR dos Exércitos, Rei meu e Deus meu.
Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvar-te-ão continuamente" Salmos 84:1-4


Há uma confusão generalizada entre o templo, descrito no Antigo Testamento como a habitação do Criador e aquele que as Escrituras do Novo Pacto dizem ser o lugar de morada do Eterno.

Entre um e outro, há muita distinção.


Num, compra-se, vende-se...

Conversam, abraçam-se pessoas de carne e osso.
Filosofa-se, discute-se, argumenta-se...
Conversam sobre tudo - futebol, política, sobre a vida alheia... sobre a aventura humana e até do que é eterno.

Nesse, que é construído por pedras, tijolos, argamassa, também é edificado por esforço humano, obras e obreiros, pela vaidade do mortal, sobre o suor, lágrimas e esperança alheia, e pelo inútil comércio que pretende-se comprar o Inegociável.


As suas portas são seletivas, excludentes e não raro, custam muito ao que ali queiram entrar e tem horário e profissionais para o seu funcionamento.

Nesse lugar geográfico, limitado pelo alcance dos olhos e poder humanos, constroem-se carreiras e edificam-se nomes para o que vai-se perder naquele dia.


Esse, apesar da institucionalização da relação com o que não Se poder aprisionar ou manipular, foi destruído quando o Filho do Homem Se deu em sacrifício único e capaz (palavras Dele, não minhas!).


No outro templo, construído em apenas três dias por Deus, foi edificado pela ação do Espírito. Sem palavras, muitas vezes em choro e lágrimas, com murmúrios... Mas solidificado por graça. Ali, onde a ação do homem, frágil não tem poder e onde o não-fazer, o despir-se e humilhar-se bate à porta dos céus ou aciona-se o elevador que nos leva até lá.

Nesse outro templo, feito por Deus, encontramos-nos a sós com Ele.
E encontramos não o juízo, não olhares sem misericórdia ou ternura.

Ali encontramos o refúgio da alma e onde a tal mesa é preparada e posta em frente aos nossos adversários e encontramos a honra e o consolo a nós dispensado pelo Papai.


Nesse último, o lugar é o que menos conta. Porque o Lugar nos achou. Nesse lugar sequer precisamos entrar, porque o Lugar entrou em nós - onde quer que estejamos e desejamos esse encontro. E tem lugar para o rico e o pobre, o pequeno e o tido por grande, o excluído, o desprezado, o bem afamado, o fracassado, o sábio e o ignorante, o branco e os de toda cor, etnia, cultura e nação... 


No outro, o primeiro, pode-se achar de tudo. Menos Deus.



"E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração." 

Jeremias 29:13

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O tímido e o lavabo de Belo Horizonte (série memórias precoces)


Já conheci gente tímida, mas Almir, sinceramente, foi a pior delas.
Ele não podia ser considerado nem tímido. Era travado!

Diziam os seus amigos de engenharia na UFMG, de Belo Horizonte, onde estudava vindo do Triângulo Mineiro, que Almir quando nasceu, não teve um parto propriamente. A turma contava às gargalhadas que por conta de muita gente na sala de parto e por não ter sido chamado a sair do ventre da mãe, teve de ser puxado à fórceps e, depois das palmadas do médico, pediu desculpas ao doutor.

Até responder questões de prova e questionários que não fossem daqueles de se por cruzinhas, Almir começava sempre por um “Bem,... na minha opinião”, quase se desculpando por ter sequer algo na cabeça.

Era de constranger – ou de rir – assisti-lo gaguejar em toda e qualquer situação.

Vai dai, que o travadão, entrava ano e saia ano, continuava sozinho e, bastava tocar no assunto de namoro, pro tal rapaz boa-pinta, de princípios e cristão desses de fazer calar até declaração de imposto de renda ficar corado mais do que camarão no vapor. Era na verdade um assunto no qual não se podia tocar.

De tanto as mães piedosas da igreja da qual fazia parte orarem e tudo fazerem para que alguém tivesse a bênção de desencalhar aquele partidão vindo do interior arrumando-lhe enfim o seu par de sapato. E foi assim que, milagre da boa, Almir arrumou a Janaína, morena simpática e já meio tendo que perdido o ônibus do tempo, pra ser lírico ou, encalhada, pra ser rasgado.  Era ela a filha mais velha da dona Cotó, antiga coluna da intercessão da comunidade que, apesar de há muito já não aparecer na igreja por conta de uma congregaçãozinha bem mais perto da sua casa no Bairro Sion, para onde fora transferida, era uma crente fervorosa.

Nem vou considerar como é que isso se deu, partindo da ideia que o Almir, tímido como era, daqueles de pedir desculpas por esbarrar em poste, a tão esperada notícia encheu os seus pastores de alegria e de ânimo para crerem em milagres, qualquer um que fosse.

Nos bastidores da igreja, dizia-se entre sorrisinhos escondidos, que na verdade, Janaína é que dera o bote, sabendo que daquele mato não sairia coelho. Dizem que ela chegou (depois de muita oração, indiretas, diretas, insinuações e tudo o mais) e simplesmente perguntou-lhe na cara: “Você me aceita em namoro?”.

Conhecendo aquela ovelha, um pastor experiente, imaginaria que, nem que fosse por não conseguir arrumar uma desculpa, uma resposta incisiva e mais forte, simplesmente o Almir deve ter balançado os ombros e, no seu estilo do “deixa como está pra ver como é que fica”,  soltou algum murmúrio e, como quem cala consente, começaram o romance.
Era de dar gosto ver o casalzinho andando de mãos dadas pela igreja, assentando-se junto nas reuniões... e nas sociais. Até que... o tal acidente veio.

Não bastando à Janaína ter arrumado o seu par e a dona Cotó o tão esperado genro, marcaram-lhe um almoço, a contragosto desse, na casa da família, num domingão, onde queriam conhecer tão grande bênção. 

Para quem conhece Minas Gerais e a sua gente rigorosa com os bons costumes tradicionais e também o que vale desencalhar uma filha meio passada da idade, já imagina o evento. Ele teve direito à mãe, três irmãs, duas tias, uma vizinha chegada ou enxerida (sempre há uma) e mais: tutú de feijão, couve, torresminho, muita carne de panela, quindins, etc...

Fazia um calor excepcionalmente forte em BH o que, juntando ao seu nervosismo fazia com que Almir suasse mais que tampa de marmita. E lá foi ele.

Quase sem conseguir falar ou até andar, o rapaz foi colocado na ponta de mesa entre os olhares do mulherio – de alto a baixo, com os que se usa pra medir um cavalo em leilão. E dá-lhe perguntas: De onde veio? Quantos irmãos tem? Do que você gosta? O que pretende fazer?... até um “Você se pretende casar logo? “saiu, na mesa agora transformada em sala de interrogatório policial.

Eu posso imaginar hoje que foi muito pra um rapaz que suava até em exame de sangue, passar por tal constrangimento.

Mas, para encurtar e indo logo pro desastre, entre perguntas, risadas e confissões sobre a vida da moça e da família, Almir, nem que fosse para fugir de ter de falar, empanturrou-se do que a dona Cotó fazia de melhor na cozinha. E... dá-lhe calor. E dá-lhe comida...

Quando estava perto do fim do martírio, imaginou Almir, a sogra ofereceu-lhe pra arrematar o festim, logo após o pudim de leite, um licorzinho de Jenipapo que a tal vizinha trouxera e que, fazia questão de dizer – só oferecia em ocasiões como aquela.

Foi quando o Almir sente um leve tremor acompanhado por um fio de suor gélido a descer pela calha das costas, rapidamente transformado em sismo com alguns bons graus na Escala de Richter. Sua mente então, como num alerta de incêndio, avisa-lhe: Có-li-ca!

Almir ficou pálido. O tremor agora transformara-se em peso no baixo ventre enquanto a sua timidez entra em briga com a sua aflição e o máximo que o rapaz, pressentindo que uma tragédia iria-se consumar em segundos, balbuciou: “Têm aqui algum lavabo? Não estou-me sentindo bem”, certamente com vergonha de admitir que precisava mesmo era de uma privada.

Faltando-lhe a cor morena característica e com o suor escorrendo pela testa, o pobre Almir conseguiu enxergar só um dedinho apontando à sua esquerda uma porta entreaberta. Foi o que precisou pra segurar a, digamos, honra e dignidade e correr.

Alguma fórmula matemática deve existir que explique a força inversamente proporcional que um intestino em convulsão tem, aumentando a cada metro em relação à diminuição da distância que nos separa de um vaso sanitário, mas a verdade é que o Almir mal fechou a porta atrás de si, para que, abrindo, quase rasgando as calças, nota que o pequeno cômodo só tinha mesmo e nada além de uma pia e uma torneira. Como já vi em muitos lugares desse Brasil, alguns lavabos têm somente a pia, para algum visitante, ou os que chegam de fora possam só lavarem as mãos. E ai reuniram – ou faltaram, depende do ponto de vista - os elementos pra bagunça.

Nessa hora, o indeciso rapaz nem sequer pensou – pulou assentado sobre a pia e deu vazão à sua pobre condição humana, fisiológica e animal.

Mas como temos aprendido que desgraça para ser desgraça nunca pode vir só, nem terremoto sem um tsunami no rastro,  eis que alguém grita do outro lado da porta – Almir, desculpe, meu querido, a torneira, ... ao que ele desesperado vira-se para trás, a meio do serviço a tempo de ouvir: “...Ela não funciona. Não há água!”.

O pobre e infeliz chegou a abrir a torneira que, num ranger soltou no máximo um “sssssss....” e foi só! Nem uma gota!

Almir contou-me que na hora, só pode segurar o grito de desespero a meio da garganta e sussurrar: “Senhor, me perdoe, mas agora que começou, acabe logo com isso e me mate, por favor!”.

Disse-me constrangido, anos depois e em tom misto de desabafo e confissão: "Eu pedi mesmo para morrer, pastor!”.

Olhou ainda para o alto onde vislumbrou nada além de uma janelinha veneziana onde não passava nem o braço, quanto mais o resto, numa tentação de fugir, desaparecer da cena do crime.

Do outro lado da porta, Janaína pergunta-lhe: “Você está bem, querido?”

Ao que ele responde tentando disfarçar  – “Sim, estou! Tive uma queda de pressão e estou só tomando um fôlego e já vou!”. Olhou do lado, contara-me depois, à procura de uma revista, jornal... folha de cheque, até nota de dólar valia, qualquer coisa que ao menos lhe pudesse ajudar, minimente que fosse pra se... recompor. E não havia lá nada. Mas essa parte, vou pular e deixar à imaginação de quem acha que nunca vai passar por isso.

Como me contou, constrangido, alguma coisa recomposto, ereto, firme, Almir, de alma lavada ou melhor, de entranhas vazias, como qualquer pessoa normal (e com a pia cheia), conseguiu abrir a porta e fechar-lhe numa rapidez digna de um super-homem, ainda disse à toda a plateia: “Vou ali ao carro apanhar um remédio que esqueci de tomar hoje cedo e já volto”.
Andou mais rápido que pode e sumiu. Da igreja, da namorada e até do Bairro Sion, de onde desviou-se por algumas semanas antes de conseguir uma transferência para uma universidade no outro lado do estado.

Timidezes à parte, aprendi uma lição: Mais vale ser sincero, do que acabar um romance. E esse, seguramente, prometia muito.

*Os nomes e os lugares foram trocados por motivos óbvios...