sábado, 13 de agosto de 2011

Restitui-me, Senhor!

Ouvi uma música cristã hoje de um CD que comprei.

Fala de restituição. Bonita melodia. Mas fiquei pensando: restituir o quê? O que posso pedir que me é de direito? O que posso ter perdido e que não era para ser?

Pensei bem - eu fui servo de mim mesmo, das minhas paixões, de uma consciência sujeita aos apetites meramente animais... e agora fui feito servo de Cristo. 

E, uma vez servo, escravo,... pergunto: um escravo tem direito? Então... restituir o quê?
Mas não parei ai.

Lendo as Escrituras, acabo por descobrir que Deus, por Ele mesmo e Sua graça nos leva sempre, de graça em graça ao crescimento. Com a ajuda de cada membro, de cada junta e ligadura, com o exercício dos dons e das experiências... cresço até que um dia, alcance a estatura do Varão Perfeito. 

Ora, nesse processo, perdemos coisas, vemos coisas abaláveis sendo abaladas e caírem ao chão. E a pergunta vem: O que vou pedir pra que Deus me restitua?

Será que o assombrado Jó, pediria em sã consciência, depois de, passar o que passou e, segundo ele próprio ver com os olhos, Aquele de quem só ouvira falar? Acho que nem os bens e possessões que perdera - com a permissão de Deus e para um propósito que é sempre bom, perfeito e agradável - fariam-no desejar voltar a um patamar abaixo, a uma condição anterior à tal revelação. 

Se Deus nos faz andar em novidade de vida, a experimentar o novo - o novo que não vem de fora, mas de dentro, uma nova visão Dele, da Sua graça, da vida, das circunstâncias, do que é eterno, uma nova mente, uma nova consciência formada segundo o Evangelho, pergunto: Restituir-nos o quê?

Ora, de capa a capa, do Antigo ao Novo Testamento, lemos o apelo "Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas, porque estou fazendo coisa nova", ou coisas do tipo: "Quem lança mão do arado e olha pra trás não é digno de Mim", ou como Paulo afirmava: "Uma coisa faço - esquecendo-me das coisas que para trás ficam prossigo pra frente", o que pode ser esse pedido "Restitui-me"?

Francamente, tudo o que mais tenho pedido é que Deus me faça acontecer o novo e não reviver o que é velho. Custe o que custar, doa o que doer, quero o novo de Deus.

E, se é pra pedir restituição, pergunto: "Será que podem restituir-me o dinheiro que gastei no CD?" 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A glória das cicatrizes

"...pois tu me levantaste e me abateste". Salmos 102:10


Ninguém gosta de portar cicatrizes. 
Elas são o atestado das nossas lutas e, inevitavelmente, atribuídas ao fracasso, ao erro, ao infortúnio.


Elas chamam para quem gosta de apontar dedos, aos escarnecedores, aos religiosos, aos cheios de justiça própria, a atenção para o que saiu errado, para os seus possíveis motivos punitivos.


Já ouvi certa vez, que devia-se desconfiar de todo homem de Deus que não as possui. E simplesmente pelo fato de que elas mostram uma certa experiência, nunca sem dor ou sem desassossego. E com Deus.


Nesse salmo, David não deixa dúvidas - Deus o levantou. E Ele também - não o diabo, não os inimigos, não a criatura, não as circunstâncias. E, como tudo o que Ele faz, com um propósito.
Ninguém gosta de exibir as suas mazelas. Os pés de barro. Alguns, não conseguem escondê-las. Preferem as máscaras e as próteses e essas, quanto mais perfeitas e imperceptíveis, melhores.


Hoje valorizo as minhas cicatrizes que continuam a vir sobre mim. Tenho descoberto que elas não me diminuem, mas, ao contrário, me levam mais perto de Deus e acabam como marcas desses "encontros".


São lembretes. Da nossa condição de fragilidade e pequenez, e no fim, quando fechadas, atestam sempre que passamos por Deus e saímos crescidos e mais conhecedores da Sua graça e bondade. O Caio Fábio disse certa vez: "Não há um homem de Deus, que não tenha sido elevado e depois abatido por Ele". Lembremo-nos de Jacó, de Elias, de David, de Daniel, de Paulo e de tantos outros. Não saíram mais os mesmos depois disso.


E, como me ensinou Alan Brizotti, um amigo querido: "Elas acabam sendo úteis para curar a outros". Não são os êxitos que curam. Mas o que ficou em nós depois da provações e lutas com Deus. 


Como foi com Jesus (Homem de dores e que sabe o que é padecer!) que, mesmo depois de voltar dos mortos e com um corpo bem diferente do que tinha (que até podia ultrapassar portas e paredes), manteve uma coisa especial do corpo anterior - os sinais dos cravos. E com eles, curou o incrédulo Tomé.


A minha oração é que eu valorize cada minuto nesse processo de "marcação". E em silêncio, sem queixume ou apontamento de possíveis promotores desse momento para além de Deus, acertando-me com Ele. E valorize, o que quase ninguém quer. Que talvez até os anjos desejassem se lhes fosse permitido, mas que hoje, aos humanos, não trazem sucesso algum.