segunda-feira, 7 de março de 2011

Vale a carne! Dos foliões ...e a dos crentes!

Nesses dias de carnaval, participei da alegria do povo, das baterias, das bandas, da folia como nunca: no meu quarto!

Não que tenha sido preciso eu descer do apartamento onde vivo atualmente para participar da maior festa popular do mundo, mas fi-lo ao ouvir com a força de uma caixa de som postada à cabeceira da minha cama, com toda a potência da farra, vinda de uma praça a poucos metros de casa.

Quanto mais se aproximavam os dias, mais via crescer a minha preocupação com a algazarra que atravessaria madrugada adentro - previsão essa que se mostrou acertada.

Comecei a torcer pela chuva, por um temporal na realidade, tudo que pudesse atrapalhar a coisa toda da qual nunca vi a menor graça.

Ao passar pelo local do evento, na tarde do primeiro dia, reparei nas barraquinhas de lanches, de comida, bebida, presentes sempre em qualquer que seja a aglomeração humana e refleti para além das minhas comodidades.

Sempre achei o carnaval uma festa vibrante e da manifestação legítima da alegria (pouca, diga-se de passagem) do povo, das suas artes, mas também pelo lado terrível - a dos excessos - da bebida, da sensualidade exacerbada, dos exageros, que comumente podem trazer arrependimentos para toda uma vida, para muito além dos quatro dias de folia.

Uma festa enfim, que deixa de lado as virtudes e acaba por incentivar os instintos e nos expõe a perigos. Nada menos cristão.

Reparei também, nos comentários irados postados nas redes sociais, vindas dos cristãos. E, particularmente, dos religiosos. E ai, me vi em cada duma delas...

Acabei por me lembrar do episódio da aldeia samaritana que proibiu Jesus de entrar pelas suas portas em Lucas 9, negando (como fazem muitos hoje) que Ele se achegasse até eles, provocando nos discípulos - em alguns, é verdade - uma ira não justificada, ao desejarem que fogo lhes caísse dos céus contra aquele povo rebelde. Com esse desejo, eles igualmente, estavam dando vazão à sua carne e não aos princípios que lhes propunha o Senhor.

Voltei-me das minhas intenções egoístas que só pensava no meu bem-estar. E pedi, envergonhado, algo diferente a Deus.

Que Ele abençoasse aqueles comerciantes que comem o pão honestamente e, ao povo, para que tivessem uma diversão o mais saudável possível. Com barulho ou sem.

Que me perdoem os religiosos, mas diante de um povo que não dá ouvidos - nem espaço a Deus - prefiro pedir que os céus lhes seja propício e que os abençoe livrando-os deles próprios e das suas paixões tresloucadas.

Ao ver os comentários de muitos desses vaidosos "crentes" que manifestaram vontade de alguma chuva - até de fogo - celeste, como eu próprio o desejei, fecho com Cristo que, diante de uma Jerusalém hostil e a ele igualmente fechada, chorou pela sua dureza de coração e resistência, desejando aninhá-la debaixo de suas asas protetoras.

"Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens,..." Lc 9:56

12 comentários:

Alice disse...

Sublime texto ! e verdadeiro até a ultima letra... sabe, vejo que os religiosos que gritam e cospem fogo contra o povo que desconheçe Deus nestes dias de folia, são os mesmos que se escondem em retiros para não se misturar com o mundo... mas se pensarmos por um outro angulo, o retiro tem seu lado bom até certo ponto em nossas vidas cristãs, até o ponto do crescimento médio, depois, vale mais ser como Cristo e estar entre os pecadores, levar luz e sal ao mundo e lutar pelas almas nesses dias em que a maioria dos Cristãos com a boa desculpa que carnaval é coisa do diabo - simplesmente entregam o mundo ao diabo de mãos beijadas - literalmente - se escondendo em suas cavernas...depois, vem a barulheira do " tá amarrado" e da libertação... falta-nos uma oração e ação preventivas e ativas....mas diga-se de passagem, não somente no carnaval.
Amei seu texto, ta demais mesmo ! ...como sempre.
Abraçosssss

Hermes C. Fernandes disse...

Um dos textos mais equilibrados que tenho lido sobre o assunto. Parabéns, Rubinho. Espero que seja lido por muitos, principalmente os do bloco de Tiago (aquele discípulo que pediu fogo do céu sobre os samaritanos).

Rubinho Pirola disse...

Obrigado, amigos Alice e Hermes. É isso mesmo. Como diz nosso amigo Caio: "Quando a igreja deixa de chorar a dor do pobre, ela deixa ser ovelha e passa a ser o próprio lobo!". Vamos pedir que Deus nos ajude a mantermos o coração de Cristo. Pra sermos ovelhas. Sempre.
Um beijão pros dois!

Rubens Rodrigues disse...

Considero o texto sublime também! É raro (infelizmente) quando podemos ver o amor de Deus, tão bíblicamente expresso na vida de irmãos!!!
Show!!!

Rubens Rodrigues
rodri_ia@hotmail.com

José Humberto N. Júnior disse...

Boa Rubinho!!

Abs,
Júnior

eugeniojcr@yahoo.com.br disse...

Grande Rubinho, bela reflexão. Carnaval, saturnálias, festas milenares, dedicadas aos prazeres, portanto, cultuadoras do instinto, como vc bem diz. Mas temos também, ora pois, a Páscoa, o Natal e outras festas que deveriam cultuar o espírito. Mas, qual o que! O que me choca, tanto quanto a degradação do humano nas festas carnais, é observar igual ou pior conduta nas outras também, com destaque p o espirito do consumismo, praga q vai esgotando-nos e a este Éden. Dá outro texto e, não sendo o caso, paro por aqui. Saudações irmanadas.
Eugênio - Goiânia

Rubinho Pirola disse...

Obrigado, amigos. E Eugênio com a sua observação que vale mesmo um post. Um abração a todos! E prossigamos mesmo lutando por ostentarmos o nosso RG: o amor!

Mix Martins disse...

amei o texto. Somos muito prontos em julgar e lançar veredictos e esquecemos de amar as pessoas!

Sarah Catarino disse...

Obrigada Rubinho, pela tua palavra esclarecida, humana e cristã! Jesus olhou as multidões (e não estavam em Carnaval)e encheu-se de íntima compaixão, porque era como ovelhas sem pastor...
Que pastores somos, afinal, se o que nos invade não é compaixão,(não a paternalista, mas a cristocêntrica)?
Um abraço do lado do mundo que amas...
Sarah

Laura Carrilo disse...

Rubinho, mtas vezes somos levados a criticar, julgar e não abençaoar, esquecendo que mtos estão cegos.
Esse é o papel do cristão: pedir para que tenham uma visão clara do reino de Deus e só assim verão que a verdadeira alegria está em Cristo Jesus.

Filósofo Calvinista disse...

Olá! Jóia o post e o blog. Sempre te vejo lá pelo Genizá. Agora aqui, diretamente. Parabéns pelo trabalho:

http://www.filosofiacalvinista.blogspot.com/

diogo disse...

caro rubinho,

devo confessar que nao sou religioso, como percebi que a maioria aqui o é; caí no seu blog por acaso.

no começo do texto, quase desisti de continuar e quase fechei seu blog, achando que se tratava de mais um ataque sem pudor ao carnaval, como tantos outros textos.

me surpreendi positivamente ao constatar, prosseguindo com a leitura, a sensatez das suas palavras, nao pelo lado religioso, mas sim pelo puramente democrático.

aliás, me fez refletir sobre as muitas vezes em que eu, amante do carnaval, já rechacei opinioes de quem é contra a festa sem nem ao menos tentar enxergar o outro lado da moeda. agradeço a reflexao.

excelente texto! parabéns!