sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Saudosa maloca que não volta mais...


"Si o senhor não está lembrado, dá licença de contá..."

Com essas palavras, começava o samba, um dos mais famosos, do não tão menos especial Adoniram Barbosa.

Tão simples quanto os seus versos, mas com cheiro, gosto e o sotaque carregado de italianidade de São Paulo, me lembro da sua frágil figura, de chapéu e guarda-chuva pendurado no braço, vez ou outra, encostado ao balcão de um café que existia na esquina colada à Escola Superior de Propaganda e Marketing, onde estudei por quatro anos.

Estávamos ainda - eu, estudante - e a faculdade, posteriormente transportada para a Vila Mariana, na Rua Rui Barbosa, no encantador bairro do Bixiga, bem ao lado do Frango da Concheta (ainda hoje aberta, mas na rua de trás, a Treze de Maio).

Era uma festa para mim, caipira do interior, encontrar-me com a ilustre figura, a quem pelo menos uma vez, pude oferecer uma xícara de café.

Hoje, faz cem anos que nasceu o poeta, desaparecido em 1982, pouco tempo antes de eu me formar.

Muita água já rolou e nada é como antes.

Aprendi também, e na pele, em todos os desafios que enfrentei, que o poeta estava correto ao afirmar que "Deus dá o frio conforme o cobertor" (não seria essa, uma versão sambística do verso bíblico que afirma que Deus não permitirá que sejamos tentados para além das nossas forças de 1 Coríntios 10:13?).

Já não vivo em São Paulo, já não é comum a garoa que tanto fez famosa essa metrópole, já não existem os prédios e referências de muito da minha vida passada ali, como aliás, bem o disse Adoniram, em Saudosa Maloca*, sobre a demolição de sua habitação comunitária. Mas ainda me é viva na memória a sua simpatia para conosco, estudantes orgulhosos do personagem bem ali à nossa frente (embora tivéssemos o cuidado de não o demonstrar).

Nessa dia em que se comemora o seu centenário de nascimento, a minha homenagem humilde à memória do meu vizinho ocasional e a gratidão de um tempo de sacrifícios, da vida de estudante, dos busões que tomei, das madrugadas a trabalhar e a estudar, dos primeiros anos de casamento... tão importantes na minha história.

Aproveitei nessa noite de nostalgia e usando a letra de Adoniram, para traduzir o meu tempo em Sampa:

...Que dim donde nóis passemos dias feliz de nossa vida.

Salve São Paulo, viva Adoniram!


*maloca, substantivo feminino 1- conjunto de habitações de indígenas; aldeia, habitação de várias famílias

3 comentários:

Danilo Fernandes disse...

Sempre soube que tu era um maloqueiro... kkkkk

Alice disse...

..."nóis juntemo tudas nossas coisa , e fumo pru meio da rua apreciá a demilição...que tristeza qui nóis sentia , cada talba que caía doía no coração...Mato grosso quis grita mas em cima eu falei, os home ta ca razão nóis arranja outro lugar....só si cunfurmemo qdo o Joca falo " Deus da o frio cunforme o cubertô..e hoje nóis pega as paia das grama dos jardins e pra esqueçe nóis cantemos assim....saudosa Maloca... Maloca querido dim dim dondo nóis passemo dias feiz de nossas vidas.....

Ai que saudade !!
Quando adolescente em Piracicaba, fiz um teatro linnndoooooo com essa música...onde cantávamos e reprasentávamos os maiores sucessos de Adoniran


saudade, saudosa.

José Humberto N. Júnior disse...

Adoniran, Trem das onze!! Show de bola Rubinho, ess era artista mesmo. Dom de Deus, irrevogável, incontestável. Sem o carimbo do preconceito religioso, o Adoniran era um daqueles caras que revelava Deus sem saber que o estava revelando. Dom do Pai mesmo.

Abraço,
Júnior (www.escrevendoavisao.blogspot.com)