sábado, 24 de julho de 2010

Obesidade Mental

João César das Neves (Economista e professor universitário português)

O prof. Andrew Oitke publicou o seu polêmico livro "Mental Obesity", que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.

Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna.

"Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada.

Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses."

Segundo o autor, "a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono.

As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas.

Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.

Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e
comentaristas, os editores da informação e filósofos, os romancistas e
produtores de cinema.

Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação."

O problema central está na família e na escola.

"Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate. Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas.

Com uma "alimentação intelectual" tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada."

Um dos capítulos mais polêmicos e contundentes da obra, intitulado "Os Abutres", afirma:

"O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas.

A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular."

O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polêmico e chocante.

"Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais."

Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.

"O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve.

Todos acham que Saddam é mau e Mandela é bom, mas nem desconfiam porque. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto".

As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.

"Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes
realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil,
paradoxal ou doentia. Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo. Não se trata de uma decadência, uma "idade das trevas" ou o fim da
civilização, como tantos apregoam.

É só uma questão de obesidade.

O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.

O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos.

Precisa sobretudo de dieta mental."


4 comentários:

Leilahh disse...

Tá ficando cada vez mais difícil de acessar qualquer veículo de informação.
Estou cansada, pois não há nada que me prenda a atenção.
Estou cansada de ver e ler cópias e mais cópias.
E olhando com olhos espirituais, estamos achando banais as notícias horríveis.
Logo penso em...O amor de muitos esfriará.
E mais...Estamos gordos espiritualmente.
Sabemos tanto sobre a Bíblia...discutimos...e...o que mesmo temos feito com tanto conhecimento????
Ahhhh...que Deus tenha misericórdia de todos nós!!!!!!!
ABraço.

Rubinho Pirola disse...

Querida amiga Leilahh!

É isso mesmo. Transpondo o argumento do autor do texto para as nossas comunidades, vemos o quão longe estamos da "reta", não? Uns, engordam com tanta porcaria (adereços, coreografias e malabarismos teológicos)..., outros, alimentam-se também de tantas boas palavras e ações do Pai e não fazem nada com elas, empanturrando-se e acabando por "pisar favos de mel".
Que Deus tenha misericórdia de nós, maninha...
Misericórdia mesmo. Esses dias já são os descritos nos piores textos proféticos...

Um abração. E obrigado pela sua presença.

Leo disse...

A limitação no geral sempre impulsionou a busca pelo saber, ao contrário do excesso e das facilidades.

Nosso momento atual cria pessoas que lêem talvez mais do que no passado, mas isso não significa em hipótese nenhuma que estão buscando conhecimento.
Tomo como exemplo a música em mp3. No geral, as pessoas com um milhão de músicas em seus aparelhos, acabam não "ouvindo" absolutamente nada.

Penso como o autor, o fácil acesso e o excesso de músicas, livros, filmes, informação, não tem produzido um percentual à altura de capital cultural nas pessoas. Pelo contrário, em todas as artes o que temos são críticos e pensadores piores do que os que tinhamos em gerações passadas. Creio que o excesso é a principal arma do capitalismo no emburrecimento alienante dos povos.

Leo disse...

O único problema com o texto é que pelo que pude apurar, tal livro "Mental obesity" não existe, muito menos o referido antropólogo. Ao que parece, o professor João César das Neves divulgou bons argumentos, mas precisou inventar um livro e um pensador para se justificar.