quinta-feira, 29 de julho de 2010

Porque os reis andam nus

Como na parábola que nos contavam quando crianças, os reis continuam nus.

Reis, como os que estão investidos de autoridade, ou da presunção de, com seguidores e subalternos.

É difícil para quem está por cima, ouvir com ouvidos de se ouvir, os que estão em outro patamar, mesmo que seja só no juízo desse superior. Vale a ideia do"quanto mais alto, mais distante para se ouvir".

Há o pressuposto no coração do "superior", a premissa que é inatingível, que é infalível ou, se o é, não é tão fácil assim de isso vir a acontecer, a não ser por uma hipotética e distante possibilidade, imaginam eles.

Eu me tenho cansado de tentar corrigir, ou argumentar ou sequer, chamar a atenção de alguns, mesmo que muito amados. Deve ser isso, precisamente o que se passa no coração de Deus, ao lidar com esses.

Há um tempo atrás, querendo eu escrever a um amado pastor e chamar a sua atenção - com muito cuidado para não me arvorar em alguém maior, mas com a sinceridade de quem ama e vê o amigo naufragar, fui alertado por outro, a quem compartilhei o peso de tão grande tarefa. que não devia fazê-lo. "Nem tente sequer, Rubinho. Ele anda tão alto em si mesmo, que ainda há de zangar-se com você e nem vai chegar ao meio do escrito, quanto mais refletir sobre isso. Simplesmente ore por ele", disse-me.

E assim fiz.

O rei, nú, bebe da verdade que "nada é pior que o sucesso, pra além da aparência dele". Por terem esses, o bilau pequeno, sei lá..., recusam-se a enxergar a verdade (Freud explica...)

Ao portarem assim, crêem cuidar da reputação - o que deles se pode enxergar - descuidando daquilo que os anjos, e os céus dizem a seu respeito.

Achamos que temos, que somos, que estamos (e não nos falta sempre aqueles para nos lembrar disso) e os nossos ouvidos fecham-se em si mesmos. E todos continuam a assistir o, cada dia mais, patético desfile de alguém vestido por uma roupa tecida de vaidade, narcisismo ou de bajulação e endeusamento, feito por costureiros da idolatria.

Se esse lacre está na baixa qualidade (intelectual, cultural, até bíblica) dos subalternos, qualquer argumento, por mais idiota e falso que seja, vale.

Se ele está na qualidade - muito superior - de raciocínio e verborragia - do rei, vende-se até, como dizemos em Minas, "rancho-pegando-fogo". O problema é que, depois de um tempo de discussão - quase sempre acalorada - mesmo que todos acabam por concordar com o rei, nu ainda, o que resta é um amargo gosto de manipulação e de terem sido usados, ainda que todos tenham acabado por concordar pelo esgotar dos argumentos.

Os reis continuam nus. A mídia, o poder público, os políticos, os doutores de toda espécie, os pais, maridos, esposas, filhos rebeldes, os pastores (os apóstolos, ai,... os apóstolos...) e até os amigos, empoleirados no alto dos seus orgulhos-feitos-roupa-sob-medida.

Mas há um preço terrível por andar-se nu, para além da própria vergonha. Há a visão implacável do Justo Juiz, diante da qual, homem algum consegue esconder-se.

Em Romanos no capítulo 1, Paulo discorre com veemência contra os reis. Contra aqueles que teimam em andar desnudos. Deus os entrega às suas insistentes vontades de andarem assim.
E o preço está lá: a própria destruição.

E destes, o Onipresente Deus passa longe.

Peço a Deus que nunca me faltem os amigos. Os sinceros e corajosos. E que ainda nem precisem de tanta força assim para dizer o que tenho de ouvir.

Mas que não me falte também, o mesmo coração de Davi, um rei que, nu, ao ouvir de um subalterno a correção (ainda que à custa de uma parábola sobre um vizinho assassino e ladrão), não hesitou em dizer (e assumir): "este, sou eu".

E foi chamado pelo alto de "Homem segundo o coração de Deus"!

"Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito." Salmos 34:18

sábado, 24 de julho de 2010

Obesidade Mental

João César das Neves (Economista e professor universitário português)

O prof. Andrew Oitke publicou o seu polêmico livro "Mental Obesity", que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.

Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna.

"Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada.

Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses."

Segundo o autor, "a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono.

As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas.

Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.

Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e
comentaristas, os editores da informação e filósofos, os romancistas e
produtores de cinema.

Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação."

O problema central está na família e na escola.

"Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate. Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas.

Com uma "alimentação intelectual" tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada."

Um dos capítulos mais polêmicos e contundentes da obra, intitulado "Os Abutres", afirma:

"O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas.

A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular."

O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polêmico e chocante.

"Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais."

Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.

"O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve.

Todos acham que Saddam é mau e Mandela é bom, mas nem desconfiam porque. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto".

As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.

"Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes
realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil,
paradoxal ou doentia. Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo. Não se trata de uma decadência, uma "idade das trevas" ou o fim da
civilização, como tantos apregoam.

É só uma questão de obesidade.

O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.

O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos.

Precisa sobretudo de dieta mental."


sábado, 17 de julho de 2010

Ainda sobre superstição e o dia em que o diabo perdeu um par de tênis

Ontem, meditando sobre superstição, me lembrei de uma história acontecida com a minha filha Raquel, quando essa tinha apenas uns 6 anos.

Chegou a pequena (não, pequena ela nunca foi... digamos, novinha) à escola, portando um garboso tênis, trazido na mala pelo avô de uma viagem aos Estados Unidos.

Acontece que a escola era confessional e com o problema de umas professoras cheias dessas teologias de botequim (que víamos já naquela época) que ao ver a menina, gritou:

"Raquelzinha, você precisa jogar fora esses tênis! Eles são do diabo!!!".
Imaginem a cena: a Raquelzinha, assustada, diante dos colegas, mas, tenho a certeza, mais pelo espanto da tia, que por medo do chifrudo.

"Por quê, tia?", disse ela.

"Porque esses desenhos ai são da nova era, símbolos do mal, do diabo e podem prejudicar você".

Não sei sabem, mas existem pessoas, ainda hoje, que curtem descobrir significados de desenhos - tribais, etc... - que, pretensamente têm significados ligados à magia e podem prejudicar, trazer males, e outros quetais...

Ela, do alto dos seus poucos anos de vida, mas cheia de convicção teológica - mais consistente, afirmo de certeza, do que a da professora, paga para incutir valores e formar gente que pensa, disse taxativamente:

"Tia, vou dizer uma coisa - eu aprendi que tudo o que é de Deus é meu e tudo o que é meu, agora pertence a Deus. Esse tênis pode ter sido feito, costurado, pelo próprio cão, mas se está no meu pé hoje, então pertence a Deus!".

E virou as coisas e foi-se orgulhosa do presente que ganhara do avô e de ter reafirmado a sua fé.

E é isso. Sem tirar nem por.

Ao invés de nos preocupar com o usurpador, prefiro - como a minha filha - olhar e ater-me ao que diz, pensa e faz o Criador. Mesmo que muitos, mas muitos mesmo, prestem a atenção de forma contrária, crendo que a coisa está invertida - o chifrudo é o senhor e o Deus da história, tadinho, tenta reverter o prejuízo.

Ai, ai... valha-me meu São Reebok!

Bom final de semana.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Fé X Superstição

Fé, segundo a cultura bíblica é uma coisa. Outra bem diferente, é superstição.

Pode ser também uma mera obsessão, aquilo que também se parece com fé e é baseado somente numa grande expectativa, ou enorme desejo, sobre o qual se esforça para que tome a nossa mente, num pretenso empenho para que isso se concretize. E difere-se de fé, posto que é sempre embalado com o medo, com a ansiedade de que isso não aconteça.

Superstição é a nossa crença em algo que nos passaram, sem prova, sem base, sem fundamento e tomamos isso como verdade.

A fé, da qual nos fala a Palavra de Deus é sempre baseada em conhecimento. Conhecimento de Deus, da Sua vontade, avalizada pela história e, mesmo que seja por exclusão (deixando de parte aquilo que se mostra inconsistente como as filosofias que não são capazes de mudar a natureza má do homem), quando decidimos crer e testar, conferindo texto com texto, fundamento e contexto, como e onde isso foi provado e, de certa forma, testado.

Fé, ao contrário do que essas seitas que enchem as TVs e as rádios (e até os púlpitos), nunca é uma força independente, capacidade fruto do esforço humano para crer que preto é branco e branco é preto. Fé é sempre fruto de conhecimento. Mesmo que não vejamos, toquemos,... ou sintamos.

Por isso, Paulo afirma que a fé vem pelo ouvir e o ouvir pela Palavra de Deus (Rm 10:17). E porquê? Porque a Palavra de Deus nos fala de Deus. De quem Ele é, do que Ele fez, faz e fará, na Sua interação com o ser humano.

O escritor de Hebreus, afirma que "sem fé, é impossível agradar a Deus, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam" (Hb 11:6), mas o que foi-nos traduzido por "existe", na verdade, traz, na raíz do termo, o conceito de ser. Não há ainda virtude em saber que Deus existe. Quase todo homem crê nisso. A questão é sabermos Quem é Este. Então, o que o escritor afirma é que é preciso que saibamos quem Deus é, para que creiamos, fazendo da nossa base de fé, o conhecimento que temos Dele. Isso sim, faz todo o sentido e reafirma a ideia - não se pode crer, se não conhecermos, não tivermos tido um encontro com a pessoa que é, afinal, o autor e o consumador da nossa fé.

Por isso, o apelo tão insistente de Paulo e outros escritores sagrados - precisamos conhecer de fato quem Deus é. E assim, saberemos que podemos crer. E esperar Nele. E fundamentar a nossa vida, ações, pensamentos e expectativas Naquele que, tendo a nossa vida nas Suas mãos, não há como não vivermos de maneira abundante e livres de medo e ansiedade. E ai, seguro e refletindo nessa verdade, posso voltar a fazer como os meus pais me ensinaram desde pequeno e que um dia acabei, minha presunção e aventura pela religião que tenta domesticar o sagrado - orar "seja feita a Sua vontade, Senhor e não a minha".

Chega dos truques, basta dos tem de ser do meu jeito...

Conhecendo-O como hoje conheço, sei que Dele, não poderá vir nada que não seja bom. O que está preparado para aqueles que o Buscam.

Tudo o que quero para mim hoje, é meditar nisso. E seguir sem medo. Ou superstição.

"...Sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus". Rm 12:2

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Vaidade evangélica

Convicção é uma coisa. Presunção é outra.

A convicção, nos faz seguros e com sábio temor diante de algo que recebemos. A presunção, porque lança o foco da nossa atenção a nós mesmos, nos torna vaidosos e estupidamente inconsequentes.

A segurança da convicção, geralmente, evita com que estejamos ansiosos ou defensivos, mas a vaidade dos presunçosos, que sequer aceitam discutir ou debater o que julga crer, orgulhosos, atrevidos e tenta-nos ao desprezo dos que pensam diferente.

Há uma vaidade evangélica que dá asco. Vê-se isso em todo o lado, como a que aparece nos partidários políticos sectários, em doutores que já não pensam em progredir, mas em exibir os louros todos, em gente que pensa não precisar de mais nada, de nenhum saber e põe-se acima dos outros.

O religioso é assim. Cheio de verdade e de si mesmo.

É aquilo de: Eu tenho a razão, ela está do meu lado. Ela não me tem. Eu detenho a sua patente. E deixamos correr frouxa a nossa vontade, assentada sobre preconceitos e vaidades de obras mortas, aquelas que pretensamente nos justificam ou que releva os nossos próprios erros.

É por isso que o vaidoso das revelações divinas está pronto a perseguir, a ferir e a matar os que lhe são divergentes. Jesus enfrentou-os e eles perseguiram-no até à cruz. Pedro demonstrou desprezo a um centurião romano porque era um gentio, que como tal, estava "do outro lado".

Não há gratidão ou louvor na boca de um assim, porque verdade alguma lhe foi revelada, antes, lhe foi descoberta, por si mesmo, por um cérebro que se acredita superior. Ninguém os alcançou, acreditam. Eles foram a Deus. Eles O escolheram. Eles resolveram crer. Eles tiveram o discernimento. Eles próprios se salvaram.

Não há a rendição ou a entrega, mas antes, a posse.

Deus fala por mim. Se eu não abro a boca, Ele, por si, não diz nada. Nem faz nada. Essa é a sua confissão de fé.

Se cremos mesmo num Evangelho que nos foi entregue (a boa notícia - a que fomos todos buscados, alcançados e perdoados pelo Supremo Pastor), então não há mérito nenhum em nós. Nem orgulho. Nem glória. Muito menos, vaidade. Só gratidão e... humilhação.

Ai, há somente lugar para uma fraterna cumplicidade e solidariedade, numa miséria que nos nivela a todos. E por baixo.

"(Os homens) aprendem sempre, mas nunca podem chegar ao conhecimento da verdade." II Tm 3:7