sexta-feira, 26 de março de 2010

Sobre o pecado e a dor. Dos outros.


Sempre tivemos, como comunidade cristã, problemas com o pecado. Sobretudo dos outros.

Se por um lado, há uma tendência farisaica de enxergamos logo o que está errado na vida do próximo e, com isso, fazermos de imediato uma plástica moral do retrato que fazemos de nós mesmos, tornando-nos mais santos que aquele que caiu. Num ato contínuo e sequente, no nosso julgar, expô-mo-lo à execração pública, com toda a impiedade que seria própria de quem nunca erraria, nunca tropeçaria.

De outro lado, há uma igual tendência para o espanto, sem que o implicado, seja ajudado na sua falha e, vez por outra, varremos pra debaixo do tapete a caca toda e voltamos-lhe o rosto, deixando-o à mercê da vida, de Deus ou de outros que, sem o saber, possam "desembrulhar"o pacote que, covardemente e por omissão (à nossa responsabilidade solidária e misericordiosa), abandonamos.

Nos assustamos com a catástrofe católico romana, da pedofilia de sacerdotes que, ao invés de serem tratados, foram (e parecem que continuam a ser) empurrados de um lado a outro abandonados (e às suas vítimas) a própria sorte, mas em muitas das nossas paróquias evangélicas, protestantes reformadas ou não, vimos esse vergonhoso hábito acontecer.

Por anos, vimos pastores carregando problemas morais sérios serem transferidos de presbitério, de igrejas... sem que tivessem eles o tratamento adequado (descobri que uma denominação brasileira, por anos, enviou a Portugal, onde vivo, obreiros seus que haviam caído, como que num degredo contemporâneo, sem tratamento, sem acompanhamento, nada).

No campo missionário, vi já vários obreiros, abandonados à mercê de si mesmos e de suas maleitas ao invés de serem tratados com seriedade e, acima de tudo com misericórdia, para a sua reabilitação.

Assim, sem tratamento, uma constipação vira resfriado, que vira uma pneumonia, que vira septicemia, que vira defunto...

Entre coisa e outra, nesse ou naquele campo da cristandade, continuamos a tratar os escândalos quando esses já fedem, antes de, percebendo alguma fraqueza no meu companheiro de caminho, oferecermos-nos como agentes de cura (ou de encaminhamento para ela). Aliás, sempre achei que escândalo seja somente o cheiro da podridão de um peixe que já morreu há muito.

Quem sabe, na nossa pobre e quase sempre superficial comunhão e partilha do fardo de vivermos as nossas lutas, não estejamos nós, todos nós, permitindo que doentes, enfermos ou somente fracos, não estejam livres ladeira-abaixo sem o braço solidário e misericordioso?

Mesmo com o nosso choro por tantas vítimas dessa gente doente, precisamos com urgência, que nós e as nossas comunidades ofereçam a atmosfera e a liberdade que permita a todos, partilharem não só os seus entusiasmos, mas as suas dificuldades. E praticar o ministério da admoestração e não o do juízo. Como disse o meu amigo Alan Brizotti: "Quando o choro vem antes do juízo, ele sara".

Se não tivermos esse lugar, seguro e amoroso da comunhão, que outro lugar podemos nós obter amparo e ajuda para a nossa saúde?

Como já afirmou um outro amigo e pastor, Ariovaldo Ramos, constatando tristemente que, "as igrejas têm-se tornado no pior dos hospitais, onde os doentes sequer podem compartilhar sobre as suas doenças", precisamos urgente e honestamente nos avaliar.

Temo que possamos todos nos distrair (e, mesmo divertir) com essa tragédia de Roma e, perdermos as oportunidades de chorar pela solidão dos que sofrem, à mercê dos seus demônios interiores sem ter quem, sem os julgar e atirar ao inferno, ofereçam-se como instrumento de cura e reabilitação, antes dos escândalos acontecerem.

" Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros para que sareis". Tg 5:16

"Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor"Ef 4:2

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