quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Questionamentozinho sincero sobre a justiça de Deus


Tenho ultimamente uma séria dúvida: porque é que não entramos em crise, porque não perdemos noites de sono, porque não procuramos os pastores para reclamar quando Deus nos abençoa?

Sim, é isso mesmo, quando somos abençoados com essas bênçãos boas, agradáveis e lindas de se ver (e pegar!).

Eu francamente, nunca vi alguém fazer isso. Nem tenho, por regra, essa crise - quando sou apanhado por uma tremenda surpresa boa (leia-se agradável), recebendo um baita presente, sendo visitado por alguém especial, quando sou honrado, quando recebo alguma glória,... eu nunca procuro algum irmão, ou ao pastor da minha igreja para colocar a justiça de Deus em cheque porque, sendo eu mau, sendo eu um pecador dos grandes, cheio de coisas ruins, apesar de eu ter lutas no meu íntimo que sequer ouso por para fora, Deus traz do seu bom tesouro coisas que me agradam.

Imaginem, alguém vir até a frente da igreja e dizer: Irmãos, orem por mim, há algo errado com Deus, pois recebi uma tremenda bênção e eu não a mereço de jeito algum.

Onde estava Deus quando fui agraciado? Eu não mereço nada Dele... há alguma coisa que não está bem - podem orar por mim?

Estamos respirando, comendo, vivendo em meio aos nossos amados, não sendo ninguém mais do que os mais pobres e miseráveis do planeta, os excluídos, os perseguidos, os abandonados... mas Ele ainda continua a nos amar e a nos dar coisas boas...

As nossas ofertas são sempre pelo mínimo, as nossas obras são sempre maculadas por uma ou outra intenção e Ele continua como que a olhar pro outro lado...

Mesmo quando fazemos algo que as pessoas julgam fantásticas, somente porque Dele nos veio a inspiração e usamos o que na verdade, Ele já nos deu... não vamos para casa chateados porque puseram toda a glória em nós.

É... a coisa é sempre o contrário...

Vai entender a nossa pobre alma humana, não é mesmo?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A suprema linha da história

Nós sempre fomos acostumados a contar a história da salvação pelo lado do imprevisto, do acidente de percurso na história da humanidade, à partir de uma ótica bem nossa: Deus que é bom, criou o homem à sua imagem e semelhança, livre, sem pecado e, por obra desta criatura, desobedeceu ao Criador, comendo do que não devia - a árvore proibida - e dançou.

Em suma, de nós homens correndo e Deus, correndo - mais ainda - atrás do prejuízo que fabricamos.

Deus, sem saber o que fazer, pensamos nós, mesmo sem ser assim tão explícito - ficou agoniado, posto em cheque - e, furioso, expulsou o sujeito e a esposa do paraíso.

Essa é a nossa versão. Há ainda os que afirmam com toda a sua razão e convicção "teológica", que Deus, para resolver a situação, ou remediá-la, tentou de várias maneiras a coisa: Primeiro pelos patriarcas, pelos profetas, pela lei, etc... até que (ufa!) aparece Cristo na parada (no fim das tentativas e não como primeira e única opção) e põe de novo as coisas nos seus lugares.

Vai dai, que, não bastasse uma porção de cristãos viverem sobressaltados com os prováveis imprevistos da vida, achando-se à mercê de si mesmos e da sorte, com um Deus assentado no alto e sublime trono a assistir toda a tragédia, à espera e Ele próprio, à mercê desse homem e da sua performance, vêm os pensadores a questionarem toda a bagunça.

Dentre esses, Saramago, o Nobel, expoente maior da literatura portuguesa dos nossos dias a tocar dedo na ferida da cristandade.

Se Deus é bom, porque não pôs Ele guardas, miríades de anjos e arame farpado à volta da bendita - ou, no caso, maldita - árvore? Se é que o Altíssimo é onisciente, porque não impediu Ele o homem de tal crime para depois ter de o castigar?

Toda essa coisa, fica mais claro, notássemos nós os textos sagrados todos ao invés de retermos-nos em apenas alguns.

Pela mesma razão, acrescentaria eu ao escritor português - aprouve a Deus também "oferecer Cristo antes da fundação do mundo, antes que qualquer pecado fosse cometido". Ou seja,... havia - e há - um plano maior que nos escapa aos olhos, um plano "bom, perfeito e agradável" em marcha.

(1Pe 1:18-20) - "Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós."

(Ap 13:8) - "E adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo."

Deus estabeleceu todas as coisas, lá no princípio dos princípios, para fazer convergir em Cristo todas as coisas. Ele é quem mantém inclusive cada um de nós existindo, mesmo apesar da morte espiritual a que fomos sujeitos.

O que precisamos nos lembrar, à luz dessas escrituras, é que nada, nem ninguém, nem coisa alguma é capaz de surpreender a Deus, nem nunca o pegamos de surpresa com os nossos atos - dos quais somos responsáveis - andando, nos movendo e existindo em Cristo, intermediando de um lado a santidade de Deus e, de outro, a nossa miséria.

Em toda essa história, vemos o Cordeiro, que estava lá, sem o qual, "nada do que foi feito se fêz", sendo parte da construção, o modelo e o mantenedor, o promotor da unidade e o cabeça capaz de conduzí-la ao propósito de toda a raça humana, esse, justamente, traçado lá na eternidade, antes de todas as coisas.

“Este (Cristo) é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” Cl 1:15-17

O que aprendo com tudo isso?

  • Fomos criados por Deus e para Ele, tendo como modelo e alvo, Cristo;

  • Tenho de saber que nada do que me acontece, escapa das mãos de Deus, nem as coisas agradáveis, nem as outras.

  • Que nas horas mais difíceis da minha vida, Deus estava soberano, dando continuidade à uma história maravilhosa de amor, perfeita em todos os detalhes

  • Não há glória nenhuma em nós, mas em Deus que nos mantém e ajuda a viver o Seu plano;

  • E que vivemos pela graça e a graça aponta para Cristo e isso, deve gerar em nós gratidão e submissão.

Olhando por esse prisma, mesmo com a tragédia do Éden, a vida que Deus nos chama a viver torna tudo diferente.


PS: Pensei muito em compartilhar isso com dois amigos que temos em Ubatuba - a Alice e Tatá - quando orava por eles...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sobre a minha memória e a ação de graças!

Vivo assustado com a minha memória.

Não que me ache demasiado velho, mas reconheço uma certa falha seletiva no armazenamento de fatos que vivenciei.

O pior, é que não só os ruins passam-me do registro, mas os que nunca deveriam ser esquecidos, jamais.


Acho que isso está no DNA.

Falta de memória das coisas boas, as que Deus fez por nós, em nós e para nós e... ingratidão, coisas que andam juntas quase sempre.


Me lembro de certas fórmulas matemáticas que aprendi na infância, mas um livramento daqueles dignos de filme, me fogem sempre à lembrança.

Por isso é que o diabo, o nosso adversário, usa isso e sempre vem com aquela do "desta você não escapa", todas as vezes em que me vejo em dificuldades e provas.

Essa é a sua arma - uma das prediletas: fazer-me crer que essa prova, definitivamente é a maior delas. Como se Deus não me tivesse livrado de outras tantas, iguais ou até muito maiores.

E sofro inutilmente.


Por isso mesmo, por ter de vez em quando - por Deus, é certo - ter refrescada a memória, um hino, daqueles que são patrimônio histórico da igreja cristã, me abençoa imenso, aquele que diz: "Conta as bênçãos, conta quantas são, recebidas da divina mão..." e termina com uma determinada convicção: "...e verás surpreso o quanto Deus já fez!"

Nesse instante, sou animado. Encorajado por também uma verdade reavivada no meu íntimo: sou parte do único povo da terra, mais que vencedor, antes sequer de ter entrado nas batalhas.

Ganhadores, não por mérito ou por esforço, mas por decreto divino, por aquilo que a Bíblia chama "graça"!
Talvez por isso, Paulo insiste tanto sobre algo tremendo, sempre em todas as suas cartas, para que façamos, peçamos ou façamos conhecidas as nossas petições, embaladas por "ações de graça".

E para o quê? Para que Deus não fique magoado? Para que Ele não perca a fome, as horas de sono pensando: "Pôxa, magoei... esse povo não é me é agradecido"...?


Não. definitivamente não. A razão está no fato de podermos agradecer em tudo ("em TUDO dai graças") pelo mesmo motivo de que podemos ter certeza que Ele nos abençoará sempre, em qualquer circunstância...
porque na realidade Ele já o fêz.

Quando deu-nos Cristo (o cordeiro imolado antes da fundação do mundo), com Ele também já nos deu todas as coisas. E as vitoriazinhas cotidianas, miúdas (e que tanto nos apavaram), são só migalhas, sobras, daquilo que Ele, em Cristo já nos deu.

Essa é a lembrança que me abençoou nessa manhã fria e de nevoeiro aqui de Portugal.


"Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças" Fp 4:6

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Medo de homem, medo da vida II

Após escrever o último post, chegou-me às mãos esse e-mail de uma ouvinte que tem conhecido Deus conosco, através do rádio...

"Caros amigos, gostava de saber se possível, se vocês têm algum lugar onde podia me encontrar com outros cristãos que como eu, vivem sozinhos. Gostava de conhecer pessoas que conhecem a Deus e estão dispostas a trocarem amizade e se libertarem das solidão, como amigos. Tenho conhecido Deus com vocês, mas precisava também de estar com pessoas.” - M.M.


Apesar de contar com uma boa comunidade ao meu redor, gostava sinceramente de dizer à pessoa que eu também gostava de saber onde estão aqueles que desejam trocar a solidão pela amizade, de partilharem Deus.

Não é afinal para isso que somos igreja?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Medo de homem, medo da vida


Nesse mundo de fobias, uma me preocupa: a Homem-fobia.

Esse é o medo de envolvermo-nos com os outros. Mantermos distância de tudo o que não me diz respeito. E isso contamina.

Pergunta-se nos passos cruzados pelas ruas: "Como vai, bem?" Correndo o máximo, para não ouvir a resposta.

O mais importante para a imagem de civilizado é a pergunta, não a resposta. Vai que dizem: "Não, está tudo mal....".

Santidade, para nós crentes, significa toda espécie de exercícios - pretensamente - espirituais, que no frigir dos ovos, têm tudo a ver com o afastarmos-nos do semelhante.

Santidade já não é o tanto que luto contra mim mesmo para que os outros sejam salvos, mas o quanto luto com todas as minhas forças contra os outros para garantir a minha própria salvação.

Salvação, já é o livrar-me dos outros. Não de nós mesmos e dessa prisão do ego.

A Europa vive isso com intensidade, mais do que em outra parte.

"O que não é meu, não me diz respeito" é a máxima, uma afirmação que pode parecer lógica e que vem na direção da honestidade e probidade com o que é propriedade alheia, mas esconde na verdade uma determinação firme para se guardar os limites de cada um e preservar a nossa individualidade. Assim, uma pessoa caída na calçada, é coisa para os razoáveis serviços sociais e de emergência médica e não do meu braço - que tinha de ser - solidário.

O caso do sujeito assaltado e desfalecido à estrada do samaritano, já é caso para o governo e para os serviços oficiais, não meu. Vê-se, vira-se para o outro lado e já está. No máximo, no ultrapassar da média da cidadania, liga-se para o telefone da emergência.

Nas comunidades cristãs, cada dia menos digna desse nome "comunidade" (e, se calhar, também do "cristã"), busca-se o que é nosso e o resto, que Deus mesmo, Se encarregue de cuidar.

Pagam-se as obrigações (dízimos, ofertas, etc...) e os problemas, foram pagos e confiados a quem de direito.

Os décimos do meu rendimento foram pagos? Então os outros noventímos são meus. Nem Deus lhes toca.

A minha casa? É a minha fortaleza. Entra quem quer, quando, afinal, eu decidir.

Cantamos na congregação: "Somos uma família..." e, no Natal (ai, já bem próximo), encontramos pessoas sem mesa, irmãos sem casa e sem gente com quem comemorar a data maior dos cristãos e ainda nos desculpamos: "Sabe como é, essa comemoração, é a comemoração só da família", para justificar a nossa casa fechada. É sério! Isso faz-me rir (para controlar-me e não cair no choro!). E essa palhaçada litúrgica continua e ainda admiramos-nos quando, pouco a pouco, o povo começa a esfriar e a entender tudo isso como uma imensa enganação (já vivi muito isso, minha gente, nem conto!).

Quando Jesus veio, veio para quebrar as cadeias. Todas elas, inclusive as trancas dos nossos corações. Ou então, não deixei quebrar nada, nem uma, nem outra coisa. Por isso, pedimos: "Perdoa, Senhor, como eu tenho perdoado". Só podemos fazer isso, sabendo que já recebemos o perdão e este, contaminou-nos. Não há outro jeito.

A Palavra de Deus afirma que Ele já quebrou o muro da inimizade. Mas nós insisitimos em levantá-lo.

Ah!... O quanto lamento pelo meu pre-conceito que me afastou de quem nem cheguei a considerar... O quanto podia ter sido abençoado abençoando, ligando-me a alguém com outra parte do imenso puzzle humano posto por Deus em cada um, que só faz sentido quando juntado...
Aprendido, interagido, relacionado, compartilhado... Isso é o que Deus deve chamar de vida. Quanto mais nos guardamos dos outros, menos vivemos, menos provamos do seu significado, menor é a nossa experimentação daquilo que Deus preparou para nós.

Enfrentamos problemas e nos escondemos. E ainda dizemos: "Não quero ver ninguém, quero esperar por Deus!" E Ele está ali, justamente na palavra, no abraço, na exortação, ou seja lá o que for, pela boca, pelas mãos, pela presença de um igual. E nem os consideramos e o que podem ter de Deus, porque não os enxergamos segundo a carne, o natural, e não por aquilo que Deus pode fazer neles e através deles.

Quanta estupidez a nossa...

Tenho aprendido e sido lembrado de uma verdade: Quanto mais somos de Deus, tanto mais somos dos outros. Ou... não sendo dos outros, também não somos Dele. É matemático. Pode ver.

"E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação;..." 2 Co 5:15-18