segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Orar, verbo passivo


"Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto..." Mt 6:6

Reza é falatório para não ouvir. Como afirma Ruben Alves.

E como evangélico reza... achando que pratica coisa diferente. O nosso negócio é orar. E orar não é rezar, afirmamos nós.

Mas, de um modo ou de outro, o que temos visto é ladainha, reza e não oração.

Eu sempre fui encucado com essa coisa de orar, como se esse fosse o modo pelo qual o "Onisciente" fica sabendo de coisas que ainda não sabe.

Nós, cristãos, entendemos que se não orarmos, Deus não nos atende.

Orar é fazer Deus nos atender. Ou saber de coisas que não sabe.

Vai dai que usamos as orações para convertermos Deus. Fazê-Lo ser mais "bom", ou convertê-Lo às nossas causas.

E jejuamos, e imploramos, aprendemos técnicas para "dobrarmos" a vontade divina...

Ensinam-nos que devemos antes de orar, ofertar, sacrificar - via de regra - o bolso, a carteira e só ai, dizem eles Deus responderá. Faça isso e mais aquilo, chore, gema, implore, seja perseverante, incomode, perturbe,... para que Deus o ouça.

Se é verdade que Deus nos suprirá de comida, como a que dá aos passarinhos, ou vestimenta, em maior esplendor do que os lírios do campo (valemos mais que esses, disse Jesus!), enfim, dessas coisas e demandas da vida que nos seríamos acrescentadas na nossa caminhada, então não faz sentido algum, entendermos a oração como um meio de falar muito.

Mas as nossas orações ainda falam só de pão e vestimenta.

Somos maus e não temos coragem de dar pedra por pão, ou cobras por peixe aos nossos filhos, mas as nossas orações ainda são peditórios miseráveis de quem, desconhecendo o bom Pai que sabe dar do seu bom tesouro coisas boas aos seus filhos, não vive uma vida de fé e sim de ansiedade e obsessão.

Oração, entendo eu hoje, é um excelente meio para ouvirmos Deus. E estar com Ele. E para juntarmos-nos ao que Ele faz e tem feito - na nossa vida e na dos outros.

Orando, tornamos-nos parte do Seu mover. Afinando passo a passo a nossa vida com a Dele, como fazia Jesus durante toda a sua caminhada em carne.

Quanto mais me entrego à oração, mais sou, de fato, Dele. E Ele, meu. E isso nos transforma. Por isso mesmo creio que a oração mais poderosa que há é aquela que não muda, nem Deus, muito menos as circunstâncias, mas a nós mesmos.

Orar, não é uma prática de muito falar, mas de deixar-se aquietar.

Não há nada que se compara a ouvirmos Deus no silêncio do quarto, no secreto da vida. Mesmo que do lado de lá, nada vem, som nenhum e enfrentamos os nossos próprios barulhos que tanto abafam a Sua voz, como aqueles relógios de cabeceira que se tornam vivos, à medida que tudo se faz silêncio nas nossas noites.

Estar com Ele é ainda, a melhor coisa que pode ser orada a Deus.
Junto Dele, até as palavras são demasiadas...

6 comentários:

clara porfírio disse...

Sim, sim, sim e sim! É isso mm !! O silêncio ou simplesmente o som das ondas do mar e dos pássaros em Galapinhos, na Arrábida, no sábado passado...fizeram-me recordar quem eu sou em Deus e quem Ele é em mim! É na Arrábida que me sinto em casa, aí é o meu "aposento" favorito para orar e estar com Deus... e recentemente descobri que a palavra vem do Árabe e quer dizer "lugar de Oração", muito bom, não é?

Junior disse...

Grande Rubinho,

Bela reflexão!

Quando aprendermos que a oração não é necessariamente a mudança da situação a respeito da qual se ora, mas a mudança da pessoa que ora, talvez teremos um cristianismo mais sadio aqui pelas bandas desse "Brasil varonil".

Paz e Bem.

Ricardo Mamedes disse...

Caro Rubinho, esse seu post bate exatamente com o que eu sempre considerei por orar. Primeiro, uma conversa íntima com Deus, na intimidade (redundância?). Diferente de algazarra (o que muito se vê ultimamente). Segundo, um momento de exaltação ao Criador que, mesmo sem nada nos dever, muito nos deu e nos dá. E, terceiro e último, agradecer. Agradecer por tudo o que ganhamos, mesmo sem nada merecer, embora sendo pecadores miseráveis. Sem troca, sem promessas , sem sacrifícios. Amplexos. Em Cristo.

Rubinho Pirola disse...

É isso mesmo, amigos!

Intimidade com Deus, como pescou o Ricardo. E isso daria um outro "aspecto" ao cristianismo praticado ai no Brasil.
Copm relação ao lugar de oração a que se referiu a Clarinha, minha amada amiga, é um dos lugares mais lindos que já vi e ficam cá em Portugal, pertinho de nós. Lá, em meio à exuberância de um mar transparente e areias brancas, dá pra se encher de porrada no religioso que fechar os olhos pra orar, hahahaha... Dá pra tocarmos Deus naquele lugar.
Quem quiser conhecer, basta nos visitar, ou dar um "search" na net: ARRÁBIDA, Setúbal, Portugal

Abração a todos! E obrigado pelo comentário.

Sarah Catarino disse...

Obrigada, Ruben, por tão belo post. Orar é também dizer o que Ele diz, querer o que Ele quer, "seja feita a Tua vontade". Acho que quanto mais orarmos a oração que Ele ensinou, mais perto ficamos de saber o que é orar...

Luis Miguez disse...

É tão bom ver Deus despertar corações por esse mundo fora. O teu post tem tudo aquilo que tenho estado a reflectir com a igreja. Deus a invadir o nosso mundo e não nós o d'Ele. Intimidade e cumplicidade com Deus que torna a nossa vida, oração entusiasmante. Oração ao serviço de Deus e não do nosso. Obrigado