quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Sobre os sacrifícios


"Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça." Rm 4:3

Muita gente imagina que Abraão creu tanto, tinha tanta confiança em Deus, que sabia que, no final da história, não precisaria entregar o filho que amava em sacrifício.

Não é isso o que podemos ver na narrativa de Gênesis. O cara engoliu seco, imagino eu, que matou o filho vezes sem conta nos três dias em que se dirigiu a Moriá. A cada passo, o filme devia correr pela sua mente... e o sangue a gelar nas veias.

Deu tempo para se assustar, apavorar, ser tentado a dar meia volta, discutir, argumentar com Deus, ...fazer cambalachos do tipo que fazemos quando Deus nos pede algo que nos é precioso: deixa por menos, Senhor! Eu faço outra coisa, duas, mil coisas...

Mas abraão foi. Até ao fim. De um "Eis-me aqui Senhor!", quando recebeu a ordem, a um "Eis-me aqui, Senhor!" quando tinha o filho já imobilizado (não uma criança, mas um adolescente feito) sobre o altar.

Como fazemos as vezes todas em que a direção de Deus não caminha no sentido das nossas conveniências, tenho sempre a tendência de me lembrar de Abraão depois da tragédia toda, quando Deus troca o filho querido por um animal para o holocausto.

Mas a história não foi assim...

Acho que o segredo todo, não está no fato de Deus nos livrar na hora "h", mas no conhecimento que se pode ter do Seu amor que, de um jeito ou de outro, há de nos amparar no cumprimento da Sua vontade.

Tenho repetido isso à minha alma nesses últimos dias todos!

sábado, 24 de outubro de 2009

Coragem para ser maluco

"Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens." 1 Co 1:25

É preciso coragem para enlouquecer.

Ser doido mesmo, de carteirinha, não é coisa para qualquer um.


Num desses dias em que pensamos mais que de costume no salmo de Asafe, o 73, em que ele afirma quase ver os seus pés resvalados por ver a prosperidade dos ímpios, dos que andam à margem dos princípios de Deus, da prosperidade dos maus, do seu enriquecimento servindo-se do Evangelho (ou indo contra ele), da sua vida regalada, sem apertos, quase desistimos...

Dá-nos uma tremedeira e um frio na barriga pensar que diante de nós, só resta o andar completamente sem sentido nenhum, sem lógica ou razão.


Servir mais do que já fez? Isso é loucura. Dar-se a esse povo que nem nota o benefício e está a servir-se de você? Isso é idiotice. Perdoar novamente? Ela (ou ele) não merece, não seja idiota. O quê? Oferecer os melhores anos da sua vida para coisas que não são certas ou que não sabemos se vão trazer resultados? Caia fora. Quem há de pensar em você? Quem há de cuidar de si? E o futuro? Meu Deus,..o futuro!!! E as garantias?... E quando lhe faltarem as forças? Você está ficando velho... a saúde já não é de um garotinho... É insano.

Continuar a passar apertado, numa terra distante para nada seguro ou que lhe traga a certeza que o seu sacrifício resultará? Nem morto! Você é um idiota.


Não dá nem para compartilhar com muita gente que ninguém iria entender.

Os parentes não entendem, os amigos não chegam lá, a esposa nem acompanha. Não faz nexo.

Imagine Abraão compartilhando com os vizinhos que iria ao monte Moriá sacrificar o filho que esperou por tanto tempo. Deus mandou o que, seu maluco! Está louco! Amarrem o cara!

Ou Daniel contar aos amigos que não iria nem a pau obedecer ao rei, que estava pronto a ir pra cova dos leões... Tá amarrado! Invente algo, faça uma concessão, não precisa ser tão ferro e fogo, abra mão dos princípios, flexibilize-se, mas livre-se dessa, cara!

Jesus, por muito menos, só de dizer aos 12 que iria beber um cálice difícil de engolir, foi repreendido.
Pense em si, Jesus! Poupa-te! Nunca, disse Pedro!

Imaginem só quantas ideias malucas passaram na cabeça de Deus quando tirou a vida de alguém que julgávamos imprescindível para a Sua obra, contrariando a nossa "compaixão" e senso de inteligência, ou não livrou a cara de alguém que julgávamos importante, de um leito de morte, ou quando destruiu alguma obra que julgávamos fantástica, ou guiou a vida de muitos dos nossos heróis por caminhos completamente improváveis, só para no final, fazer algo que só estava na Sua divina cabeça...
tenhamos ou não visto algo que justificasse.

Se desejamos mesmo viver o que Deus nos propõe, o que chamamos de "ministério cristão", esperemos por algo que não tem lógica alguma.


Se amamos e queremos viver a cruz de Cristo, então temos de nos preparar para algo que não faz o menor sentido.


Nesses dias em que temos montes de desafios só temos pela frente o engolir seco do improvável e das dúvidas (compartilhamos isso ontem, eu e o Danilo, maluco do Genizah), não há para nós, outro caminho ou atalho. Para quem tem tentado só viver o plano de Deus, as coisas não têm nexo.

Mas, afinal, entre coisa e outra, há algo forte que me obriga a prosseguir: a mão do Senhor. Ele e não eu. Ele e não as seduções do "outro caminho, o largo, o fácil, o "das multidões". O outro, não é o da cruz, é sim, o da poltrona, dos holofotes, dos aplausos,...

Como disse Asafe, nesse salmo:
"Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti." (v.25). Queremos Ele? Então estejamos preparados.

Mas isso, na lógica humana, não faz mesmo, absolutamente sentido algum...

Se quisermos mesmo seguir Jesus, preparemos-nos, com muita coragem, para algo completamente maluco.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O supremo lugar

"Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo." Jo 17:24

Essa é uma oração no mínimo estranha. Deus, o Onipresente Senhor, pedindo ao Pai para que nós estivéssemos com Ele. Ora, se estaria Ele após subir aos céus em toda a parte, para que um pedido desses? Quem pode se distanciar Dele?

O que aprendemos é que perto e próximo são dois conceitos totalmente diferentes. Pode-se estar muito perto e não ser-se mais próximo. Como aliás, duas pessoas que dividem a mesma cama e já não têm nada um com o outro, com os corações a quilômetros de distancia.

Nada, aliás, perturba mais do que estar muito próximo de alguém e não sermos mais próximos. Não haver intimidade. Não haver mais cumplicidade. Não haver mais conhecimento do coração um do outro. Segundo aprendi do meu amigo e pastor Paulo Jr., a maior distância jamais representada, estava no véu do tempo, no santíssimo lugar. Um fino pedaço de pano, pelo qual se podia avistar forma e movimento, mas ficava patente naturezas distintas, identidades distintas, realidades distintas.

Acordei agora, cinco e pouco da manhã e com aquela sensação chata de não ter a esposa ao lado, (ainda em viagem) a meditar e a pedir isso mesmo a Deus: para além de estar perto Dele, quero também estar próximo, sem esconder-Lhe nada, sem ocultar-Lhe coisa alguma e ouvir o Seu coração. Como aliás, Elias ouviu após a barulhada (no vento forte, no tremor de terra, no incêndio...) - um simples e tênue murmúrio, talvez o respirar de Deus.

Essa hoje é a minha oração da madrugada.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A difícil oferta do novilho cevado


"Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á..." Mc 8:36

Quem nos conhece sabe do desgaste de mais de uma década no campo missionário. Tanto que já até nos designaram para irmos para o Brasil por seis meses para um tempo de refrigério (e algum trabalho, afinal, sou missionário brasileiro, rsrsrsrs...).
Não pude deixar de me lembrar esses dias, do novilho do filho mais velho do tal irmão rebelde, da conhecida parábola do Filho Pródigo (que para sermos mais rigorosos, devia-se chamar "A parábola do Pai Pródigo").


Nesse drama de caminhos feitos destruição, arrependimento e perdão, há algo interessante: Após a volta do fujão, o pai ofereceu-lhe uma festança com direito a assar (quem sabe no espeto!) um novilho cevado. Não um qualquer, mas o alimentado à mão, o especial, quem sabe guardado pra uma ocasião especialíssima.

O nó da questão, é que o pai ofereceu justamente algo que não possuía mais, uma vez que, como afirma Lucas 15:11 e 12, logo no início da narrativa contada por Jesus, "tendo o pai dividido tudo o que possuía entre ambos", aquele novilho não lhe pertencia.

Para além de viver de favor, o agora pobre pai, mandara sapecar um churrascão com o novilho de alguém que, por certo, já havia gasto as suas últimas esperanças e boa vontade com o irmão safado e ingrato.


Não nos importamos em socorrer quem quer que seja mas volta e meia nos surpreendemos ao ver que, mesmo sem condições, ainda temos que repartir para abençoar alguém, mesmo estando nós abatidos e nos sentindo miseráveis.
 

Quando justamente achamos ter queimado os últimos cartuchos, Deus sempre nos mostra que ainda não demos tudo - ou por desatenção, ou, no caso da narrativa bíblica, por egoísmo.

O que Deus nos dá para repartir, nunca se acaba. A nossa disposição sim. A nossa abertura para os outros sim.


Ainda bem que, do contrário do irmão ressentido que perdeu a rês numa festa que não queria oferecer, para alguém que achava que não merecia nem mais um fio de cabelo da família, quando compartilhamos de Deus, podemos dormir e sentirmos aquela paz gostosa que experimenta todo aquele que se presta a repartir o que tem e o que julga que não.
Que Deus surpreenda você também... E que não se esqueça da lição:
Tudo o que guardarmos para nós vai ser exatamente a porção que vai-se perder!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ainda sobre os abalos (e uma de avô babado)!

Ainda sobre os "abalos" de Deus, as nossas convicções e sobre o maravilhoso papel de avô (todas as vezes em que me meto a contar "causos" de neto, a minha mulher me lembra disso!).

É sobre o meu neto Davi.

Já lá vão três anos desde quando, no seu nascimento, um acidente no parto fez com que ele ficasse mais de 9 minutos com os pulmões cheios de líquido amniótico, sem respirar.

Choveram previsões e advertências terríveis: ele fatalmente teria problemas motores, no seu desenvolvimento intelectual, etc... tudo aquilo que fez com que essa experiência maravilhosa que é ser avô, fosse ameaçada de temor e tristeza.

Ainda me lembro do silêncio terrível que tomou conta do meu coração quando recebi a notícia. E vezes sem conta, assombrei-me com as possíveis e quase certas consequências de um acidente indesejável. Tudo o que podia nos tirar de órbita, de nos tirar o foco do que fazíamos aqui no campo missionário, as horas preciosas do nosso sono e de paz.

Meses se foram, três anos se passaram e, até hoje, nada aconteceu para que a infância desse garotão - lindo com o avô materno - fosse maculada por algum sinal que nos remetesse ao dito acidente na maternidade.

Ontem, chega ele, radiante da escola e diz à mãe:

- "Sabe o que a abelhinha dá? - Mel!"

- "Sabe o que a vaquinha dá? - Leite"

- "Sabe o que a galinha dá? Ovos"

e emendou para o espanto geral:

- "Sabe o que o leão dá? - Chá!"

- "Chá?" Gritou a mãe? Você aprendeu isso na escolinha? Foi?

E ele, cheio de convicção científica: - "Na sua cozinha", apontando para uma embalagem de chá, o conhecido Mate Leão.

Com apenas 3 anos, sem ainda saber ler ou escrever, esse garotinho lembrou o avô, a dezenas de quilômetros de distância, o que este vem aprendendo a cada terremoto: "a única coisa inabalável na nossa vida é o Reino de Deus." Com acidentes ou sem acidentes, com sequelas ou sem sequelas, a nossa vida sempre esteve nas mãos de Deus e circunstância alguma nos pode mover delas.

Tudo o mais, são fragilidades...

(e cá entre nós, é inteligente esse baixinho, heim? Vocês não acham? Heim? Heim?...)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Do jeito que Deus gosta!


"Aquele, cuja voz abalou, então, a terra; agora, porém, ele promete, dizendo: Ainda uma vez por todas, farei abalar não só a terra, mas também o céu." Hb 12:26

A sensação de estar onde o chão deixa de ser uma base de segurança é algo de fantástico.

Aquela máxima que diz: "Do chão não se passa", deixa de ser verdade". Todas as referências ficam igualmente abaladas. Ninguém fica impassível.

É comum na minha experiência como pastor, conselheiro,... receber pessoas desesperadas porque constataram que Deus tirou-lhes o chão, abalaram as suas vidas. São crises, descobertas aterradoras sobre si ou sobre um familiar, um cônjuge,... notícias ruins... fracassos, impossibilidades várias...

E os "abalos", terremotos existenciais são-nos muito úteis, segundo descobri.

Com o abalar das nossas estruturas - descobrimos quais delas são de fato fortes o suficientes para nos suster e, uma vez isso, pode-se continuar a emprender-se sobre elas, justamente porque foram postas à prova e, uma vez, postas debaixo das nossas edificações, como base do que construiremos, isso não ruirá algum dia. E causar dano ainda maior.

É precisamente disso que nos diz esse texto de Hebreus. Deus, e ninguém mais, fêz isso, e parece que tem todo o interesse em abalar as nossas fundações. Não o inimigo, não as circunstâncias fora do controle divino. E por graça. Para o bem. Não é gostoso viver-se debaixo de abalos, mas é algo bom e saudável.

Ainda me lembro quando cheguei à Europa, cheio de confiança naquilo tudo que era capaz de fazer, de empreender, num campo cheio de necessidades naquela época.
Por graça, tenho certeza, Deus fêz-me (e ainda tem feito) abalar as minhas convicções e bases todas. Logo nos primeiros meses, cheio de confiança naquilo tudo que sabia fazer, tive as minhas duas mãos quebradas em dois surpreendentes acidentes, no espaço de dois meses apenas entre um e outro. Naquela altura, confuso e com o desconforto todo de gessos e imobilização que me tirou a condição de trabalhar, pude refletir muito sobre uma verdade que veio a se confirmar no meu ministério cristão por cá: "Aquilo que Deus iria fazer, era mais pelo que eu sou, do que pelo que podia fazer". Nessa terra de lutas, não podia eu vir com romantismos ou abusar do direito de ser inocente.

Não é sem razão que as minhas maiores lutas aconteceram aqui...

Lisboa é toda plantada sobre bases móveis, capazes de tremer com a terra em caso de sismo sem que entrem em colapso (essa cidade já foi destruída em 1/3 da sua área urbana, há tempos, situando-se numa conhecida área de tremores).

Como ela, o grande problema da nossa vida, é cercarmos-nos de recursos, estratagemas contra os tremores santos.
E fazemos isso, quando cercamos-nos de desculpas, de acusações contra outros sobre aquilo que devia ser a nossa admissão de culpa nos nossos próprios erros. Quando cercamos-nos de uma capa protetora que sempre atira pros outros as falhas e o que se pode ver - nos outros - de fragilidades. De justificarmos-nos nas nossas necessidades, na nossa comodidade... Nos fins que justificam todo e qualquer meio, fazendo concessões ao que não há consistência ou legitimidade de acordo com a Palavra de Deus em nós.

Portando-nos assim, mantemos estruturas débeis e sem solidez, que um dia, mais tarde, irão causar danos muito piores, quando, dependendo delas, descobrirmos atônitos, que edificamos sobre a areia e não sobre a Rocha.

Antes que o edifício construído sobre esses pilares frágeis desabe, Deus mesmo se encarrega de soprar sobre eles, o seu vento impetuoso e derruba-os todos ao chão.

Não nos enganemos: Os abalos na nossa caminhada vêm de Deus, são bênção dos céus, para que nos certifiquemos, que afinal, estamos edificados, unicamente naquilo que não pode ser abalado: o Reino de Deus.

Quando estiver a passar por abalos, lembre-se disso. E saiba: você está onde devia estar.
E estará do jeito que Deus (e não o diabo) gosta.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Orar, verbo passivo


"Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto..." Mt 6:6

Reza é falatório para não ouvir. Como afirma Ruben Alves.

E como evangélico reza... achando que pratica coisa diferente. O nosso negócio é orar. E orar não é rezar, afirmamos nós.

Mas, de um modo ou de outro, o que temos visto é ladainha, reza e não oração.

Eu sempre fui encucado com essa coisa de orar, como se esse fosse o modo pelo qual o "Onisciente" fica sabendo de coisas que ainda não sabe.

Nós, cristãos, entendemos que se não orarmos, Deus não nos atende.

Orar é fazer Deus nos atender. Ou saber de coisas que não sabe.

Vai dai que usamos as orações para convertermos Deus. Fazê-Lo ser mais "bom", ou convertê-Lo às nossas causas.

E jejuamos, e imploramos, aprendemos técnicas para "dobrarmos" a vontade divina...

Ensinam-nos que devemos antes de orar, ofertar, sacrificar - via de regra - o bolso, a carteira e só ai, dizem eles Deus responderá. Faça isso e mais aquilo, chore, gema, implore, seja perseverante, incomode, perturbe,... para que Deus o ouça.

Se é verdade que Deus nos suprirá de comida, como a que dá aos passarinhos, ou vestimenta, em maior esplendor do que os lírios do campo (valemos mais que esses, disse Jesus!), enfim, dessas coisas e demandas da vida que nos seríamos acrescentadas na nossa caminhada, então não faz sentido algum, entendermos a oração como um meio de falar muito.

Mas as nossas orações ainda falam só de pão e vestimenta.

Somos maus e não temos coragem de dar pedra por pão, ou cobras por peixe aos nossos filhos, mas as nossas orações ainda são peditórios miseráveis de quem, desconhecendo o bom Pai que sabe dar do seu bom tesouro coisas boas aos seus filhos, não vive uma vida de fé e sim de ansiedade e obsessão.

Oração, entendo eu hoje, é um excelente meio para ouvirmos Deus. E estar com Ele. E para juntarmos-nos ao que Ele faz e tem feito - na nossa vida e na dos outros.

Orando, tornamos-nos parte do Seu mover. Afinando passo a passo a nossa vida com a Dele, como fazia Jesus durante toda a sua caminhada em carne.

Quanto mais me entrego à oração, mais sou, de fato, Dele. E Ele, meu. E isso nos transforma. Por isso mesmo creio que a oração mais poderosa que há é aquela que não muda, nem Deus, muito menos as circunstâncias, mas a nós mesmos.

Orar, não é uma prática de muito falar, mas de deixar-se aquietar.

Não há nada que se compara a ouvirmos Deus no silêncio do quarto, no secreto da vida. Mesmo que do lado de lá, nada vem, som nenhum e enfrentamos os nossos próprios barulhos que tanto abafam a Sua voz, como aqueles relógios de cabeceira que se tornam vivos, à medida que tudo se faz silêncio nas nossas noites.

Estar com Ele é ainda, a melhor coisa que pode ser orada a Deus.
Junto Dele, até as palavras são demasiadas...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Série de morte II - SERÁ O CÉU UM TÉDIO?


Temos uma incompatibilidade natural com a morte!

É quase genético. Não fomos criados para morrer.

Ela só entrou na nossa vida para cumprir um propósito redentor, maior, mas que a olho nú, veio nos livrar de vivermos eternamente sob a prisão do erro. Por isso, Deus pôs um anjo a guardar o caminho que levava o homem, amaldiçoado, à árvore da vida, que lhe daria uma existência sem fim debaixo do jugo dessa carne inclinada ao erro, ao que não presta.

Hoje em dia, graças à essas teologiazinhas de botequim (de tasca, em Portugal!), do hedonismo travestido de religião cujo deus somos nós mesmos e os nossos desejos, os crentes já não falam mais do céu, da morte como passagem e promoção e até, pasmem, não faltam entre nós que têm verdadeiro pavor de morrer. Podem ver. Fogem da conversa, da ideia e de sequer mencionarem essa palavra abominável, esquecendo-se que bebemos dos seus efeitos desde o dia do nosso nascimento. Meu...(eles devem pensar!), lá do outro lado não tem sexo (vide último post!), MTV, playstation, cerveja, nem piada...

Do céu, assunto cortado das nossas igrejas, já não queremos saber. Afinal, o lugar é pintado e imaginado como o lugar mais chato e enjoativo possível: anjinhos entediados a pular de nuvem em nuvem, tocando harpa (sem eletrificação!), sem sexo, sem comida, sem trabalho, sem prazer algum… Pois é sabido que no céu não há sexo, portanto, nem paqueras, bares, nem motéis, nadinha…

Uma espécie de hospital, mas daqueles onde só temos gente sem dor, sem choro, mas também sem alegria nenhuma e a comida, pior que na Inglaterra - sem sabor algum.

No céu, seremos todos umas alfaces – sem tristeza, mas também sem qualquer alegria.

Não é isso o que vemos nas escrituras.


No céu, podem pesquisar na Bíblia, as pessoas:

1. Não estão a dormir! Estão descansando das aflições, mas trabalhando.

2. Não estão a deslizar entre as nuvens, mas servindo a Deus! (Ap 7:9-17)

3. Não estão no maior ócio, sem nada a fazer (v. 15)

4. Têm consciência de quem são, afinal, se saberemos tudo como realmente são as coisas, não faz o menor sentido imaginarmos que seremos mais idiotas do que já somos aqui! (1 Co 13:9-12)


Não precisamos temer a morte pois ela…

1. É a libertação final de uma salvação que já foi decretada na cruz

2. Não significa cessação, mas separação e ainda assim, temporária

3. É o tratamento de Deus para todas as enfermidades (afinal, creio hoje que Deus cura sempre: levantando o enfermo, ou levando-o para Si).

4. É o descanso do pecado, da tristeza, das aflições, tentações e perseguições…

5. É a conquista da liberdade de todos os opositores, externos e internos;

6. É a partida da imperfeição para a perfeição!

7. É o meio pelo qual vamos estar finalmente na nossa casa, com todos os que foram um dia antes de nós e na presença de Deus, sem impedimentos.


Mas há mais algumas coisas sobre a morte que precisamos saber:

1. Se alguém morreu, não morreu porque o inimigo o levou, pois quem tem o poder e a chave da vida e da morte é Deus e mais ninguém (at 17:25).

2. Quem morre novo, não morre porque Deus perdeu alguma batalha ou foi-se por conta dos seus erros. Foi por vontade exclusiva do Senhor (Ec 7:15). Se fosse assim, sobrava meia-dúzia de políticos vivos no nosso congresso!

3. Quem morre, não fica a dormir no cemitério até a ressurreição. Morreu, está-se lá (Lc 23:43)

4. Não se pode voltar da morte, nem em espírito, nem em carne... Não se pode comunicar com os que já foram – ou até lhes pedirmos uma ajudazinha. A morte é definitiva. (Lc 16:19-31; Hb 9:27)


Por tudo isso – e mais uma pouco – não temo a morte e anelo o céu - o melhor ainda não é isso que tanto prezamos.


“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para cada um de vós – aqueles que o amam.” 1 Co 2:9

Sexo e chocolate - Como vai ser a vida no céu!


por C. S. Lewis*

A letra e o espírito das Escrituras, e de todo o cristianismo, nos proíbem de supor que a vida na nova criação será sexuada; e isso reduz nossa imaginação a duas alternativas embaraçosas: corpos dificilmente reconhecíveis como humanos, ou um jejum perpétuo.

Com relação ao jejum, penso que nossas atuais perspectivas sejam como as de uma criança que, se lhe contam que o ato sexual representa o mais elevado prazer físico, pergunta prontamente se é possível comer chocolate ao mesmo tempo.

Ao receber uma resposta negativa, quem sabe ela passe a associar a sexualidade basicamente à ausência de chocolate. Seria inútil tentar lhe explicar que, em seu êxtase sexual, os amantes não estão interessados em chocolate, pois têm algo melhor em que pensar.

O menino conhece bem o chocolate, mas nada de positivo que possa excluí-lo. A nossa situação é a mesma. Conhecemos a vida sexual; não conhecemos, exceto por vislumbres, aquilo que, no céu, não deixará espaço para ela. Assim, onde a plenitude nos aguarda, antecipamos o jejum.

Negar que a vida sexual, como a entendemos agora, possa fazer parte da bem-aventurança final, não é necessariamente supor que a distinção entre os sexos irá desaparecer. Supõe-se que tudo que não for mais necessário para propósitos biológicos talvez sobreviva por seu esplendor.

A sexualidade é o instrumento tanto da virgindade como da virtude conjugal; nem homens, nem mulheres terão de lançar fora as armas que vinham empregando com sucesso.

Só os derrotados e fugitivos têm de lançar fora as suas espadas. Os vitoriosos desembainham as suas e as mantêm erguidas.

“Além-do-sexual” seria um termo melhor do que “assexuada” para a vida no céu.

* "Um ano com C.S.Lewis" - Ed. Ultimato