sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Amor heavy metal


"Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos,
que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e se lhe atirasse ao mar." Mt 18:6


Há alguns anos, estive no Tribal Generation, um fórum que reúne os que dedicam-se a buscar com a mensagem e o testemunho do evangelho, o pessoal da geração chamada emergente.

Foi em Uberlândia-MG. Muita tribo reunida, muita emoção da minha parte ao ver gente maluca de toda espécie - maluca por Jesus e por gente. Gente de todo tipo. Gente que precisa Dele. E que, apesar da nossa velha expectativa religiosa (e preconceituosa), na maioria das vezes, mudada pela cruz, é transformada completamente, mas só por dentro. Por fora, geralmente, contrariamente do que o nosso farisaísmo podia esperar, continuam os mesmos - nos cabelos, nas roupas e adereços, rigorosamente iguais.

Pois foi ai, em meio a muita coisa de Deus no meu coração, no confronto com essas minhas ideias menores, ridículas que ainda teimavam em estar nos cantos escondidos da alma, é que me encontrei com duas ex-ovelhas, do tempo em que pastoreei uma comunidade que se reunia num velho cinema do centro da cidade.

Deviam cada uma, estar já na casa dos 70, 70 e poucos anos. Mas, não tivesse eu uma memória fotográfica - coisa de cartunista - não as teria reconhecido.

Cada uma, vestidinha de preto, dos pés à cabeça, bijouterias esquisitas e pasme, com bandanas pretas a cobrirem os cabelos nevados.

Na hora, eu deixei soltar aquela clássica, fruto do inusitado da cena: "Até vocês, minhas irmãs? O que é isso? Que roupas são essas?"...

Tente imaginar a cena e o meu espanto, diante de duas senhoras, exemplos de oração e dedicação piedosa, duas senhoras septuagenárias, na acepção do termo. Ali, diante de mim, duas malucas, passadas do tempo, com correntes e tudo à volta da cintura.

Na hora, explicaram-me rapidamente as duas, com toda a autoridade que os céus lhes dava: "Rubinho, pastor amado, estamos assim porque vamos receber pra um concerto aqueles jovens malucos do death metal" (eu confesso: nunca soube que havia até categorias a dividir os caras do movimento heavy!) e emendaram...
"e não queremos de maneira nenhuma escandalizar os meninos!"

Tai ai. Naquela noite tive - pela primeira vez na minha vida - ouvido no mais estrito senso bíblico que, creio, Cristo havia utilizado para defender os pequenos, os que mais necessitados e distantes estavam da mesa farta da graça de Deus.

Até aquela tarde, só tinha ouvido a aplicação dessa palavra, no lado oposto, como um escudo farisaico contra pessoas, para resguardarem um limite de intolerância e preconceito. Algo usado para proteger gente que, como crente, madura, velha de casa, devia mais era ter misericórdia e força suficiente para rebaixar-se à estatura dos perdidos e débeis na fé, para servi-los apresentando-lhes o amor do Pai. E não o contrário.

Desde há muito, ouvira esse: "Cuidado para não escandalizar", para proteger gente que já devia ter maturidade suficiente para flexionar-se à estatura dos mais novos.

Escândalo, cara, é fazer algo, é portarmos-nos de modo a impedir as pessoas de virem a Cristo. Aplicado a crente, escândalo nada mais é do que frescura.

Aplicado à crentes maduros é incentivar a intolerância, o preconceito e o fechar-lhes a guarda em torno das suas preferências, manias e gostos.

Cristo nos chama hoje a despirmos-nos dos nossos cômodos escudos de proteção contra os outros, daquilo que fazem de nós pedra de tropeço à aqueles que querem vir a Ele. Como aliás, Ele fez, despindo-se que tudo o que possuía no céu e vestir-se dessa roupinha ridícula, sensível, frágil, de humanidade.

Estamos prontos a abrirmos mãos de nós mesmos pelos outros? Até que ponto estamos dispostos a ir para não os escandalizarmos?

Nessa tarde, lembrei-me da lição daquelas duas malucas lindas e amadas da minha terra. E orei pra que nunca percam esse amor e elasticidade no irem até aos pequenos.

Nada mais radical e maluco!

5 comentários:

Rafael disse...

Gostei Rubinho!
Me fez pensar de forma diferente essa sua experiencia!
Grande abraço!
Deus é Contigo!

Rubinho Pirola disse...

Obrigado, Rafa!

E que bom que topou pensar diferente. Temos valorizado em demasia o exterior, a aparência, levando em conta a NOSSA preferência de gostos, e não o que importa.
Obrigado pelo comentário.
Abração!

Rafael Berti disse...

Que surpresa ver a minha foto aqui! haha
Teu texto falou tudo. O exemplo das irmas eh algo extraordinario. Pena que nao eh comum no ambiente cristao.
Assim disse Paulo... "Fiz-me de fraco para com os fracos, com fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, para todos os modos, salvar alguns". 1 Cor. 9:22
Foi Jesus quem deu o exemplo. Entao que sejamos Seus imitadores!

Abracao e
Paz

=D

Marcelo Amaral disse...

Artigo lindo, simplismente maravilhoso!!! E olha que já fui um cristão legalista ("Talibã"), mas Deus pela sua graça e amor tem me ensinado a respeito dessas coisas e tenho compreendido. Obrigado por compartilhar essas pérolas!

Rubinho Pirola disse...

Gentem! Faltou o crédito: o sujeito da foto, é o meu amigo, ex-perdido, ex-comungado e ex-membro-de-dupla-sertaneja, Rafael Berti, músico de heavy (ou sei lá que coisa é aquilo que você chama de música!)...
Brincadeira, gente! Esse amigão - o cara do boné é um homem de Deus daqueles que me deixam esperançosos (...E pensar que vi os seus pais nascerem em Jesus e tornarem-se meus companheiros de caminhada, quando ele ainda era bem novinho!). Ah! E a foto, foi "afanada" do seu álbum no Orkut.

Em tempo: Obrigado ao Marcelo, pelo comentário e confissão do ex-Talibã, agora, um crente aberto pras pessoas. Que você permaneça firme - e pronto para que Deus o surpreenda e alargue a sua fé e afetividade para os que são de fora.