sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O cristianismo esquizofrêncio e o negão da oficina mecânica

Algumas pessoas parecem ter várias vidas numa só.

Apesar de somos uma só pessoa, parecem encarnar várias realidades sem ligação entre si.


No oriente, sempre houve fortemente consagrada, a visão unificada de todas as nossas responsabilidades, todas as nossas obrigações, um existir integral, e não há a separação da nossa espiritualidade e das outras demandas da nossa existência e, nuns lugares, nem a separação entre estado e religião.

Era assim em Israel dos tempos bíblicos.


Mesmo não querendo aqui tecer comentários sobre as implicações de um casamento entre estado e religião, contudo tenho de admitir que essa compartimentalização da nossa vida tem só produzido distorções terríveis.


É aquela coisa de: minha vida espiritual, minha vida estudantil, minha vida familiar, minha vida religiosa, minha vida profissional,... e o sujeito acaba mesmo é desenvolvendo uma estúpida experiência a que chamo de "cristianismo esquizofrênico", separando o que era pra ser um todo.
Como se fôssemos mais de um, dentro de um só corpo.

Não conseguem eles equacionarem todas as, digamos "vidas" e a sua submissão ao alto e verem Deus, como recomenda as escrituras "em todos os nossos caminhos".
Uns, quando oram, parecem até que foram tomados, possuídos, pois até trocam de voz, da normal por uma empostada, polida...
Não conseguem misturar futebol, o preço da gasolina, com o céu, com a Bíblia, equalizando numa mesma conversa, sem ponto nem vírgula, Deus, o cotidiano, o alto e o chão.
Como consequência disso, não conseguem esses, viver a sua vida com Deus permeando todas as esferas da sua existência como ser social, como cidadão.

Vivem limitados por domingos, cultos, campanhas, e a sua visão dos limites do Reino de Deus é minúsculo.
Odeiam as segundas feiras porque Deus só vai, ou entra, naquilo que, crêem, diz respeito a Deus. Deus está restrito aos templos e aos "lugares santos".

Esses, só ouvem música de crente, só conversam conversas de crente, só vão a lugares de crentes, numa vida paupérrima, sem sabor, sem cor, sem graça, beleza ou significado (pois fora das igrejas, nada há que Deus tenha feito ou faça ainda. Não apreciam uma peça de arte, não admiram uma pintura,...).


Só são "cristãos", no meio dos cristãos, e até têem um jargão próprio, mas só quando estão entre os "iguais".

Só funcionam como crentes, quando ganham uma função, oficializada.

Só são pastores, sacerdotes, missionários, se ganharem um diploma, carteira assinada uma credencial. Só entendem-se partes do projeto de Deus para transformar essa terra, se isso for oficializado ou institucionalizado. No meio dos crentes são fiéis, e uma vez longe deles, correm cada um por si, sem enxergarem qualquer outro propósito a não ser o seu próprio interesse na sua pobre existência e o sagrado não é parte dela.


Eu amo ver cristãos que vivem a proposta do Evangelho sem estabelecerem-lhe limites na sua história pessoal.


Como o Noé, um sujeito que conheci há muito.


Ainda me lembro quando, ao terminarmos todos a universidade, um grupo de amigos reunidos em São Paulo e um de nós, o tal Noé, que havia terminado o seminário bíblico e se preparado para servir numa igreja (pois crente que é crente, para servir a Deus, tem de o fazer com carteira assinada e tudo!), afirmou para espanto dos amigos de fé, que iria fazer um curso de mecânica de automóveis.


Todo mundo na hora, arrepiou. Não é que o negão (ou melhor, o afro-descendente) apostatou? O sujeito tinha amarelado, temendo, não havia dúvidas, o que chamávamos de "viver pela fé", dependendo de Deus, na nossa santa e ingênua ignorância. Pensamos todos a mesma coisa e questionamos-nos o porquê.


Mesmo depois de uma explicação que na hora pareceu-nos menor, pobre de argumentos, anos depois vimos os resultados de tal decisão: aquele sujeito havia transformado um bairro todo, lá na zona sul se não me engano, abrindo não uma igreja, mas uma ...oficina de automóveis!


Pouco a pouco, de uma portazinha acanhada, viu ele o Senhor agregar-lhe lateiros (bate-chapas, em Portugal!), pintores, outros mecânicos, todos, igualmente achados sem emprego, sem esperança, sem salvação, perdidos sem Deus e sem a mensagem da cruz.


Em meio ao serviço, esse nosso amigo compartilhava (acho que não de gravata e paletó) o que conhecia de melhor e servia-lhes a existência, repartindo, mais do que possuía, mas tudo o que era, como filho de Deus.


Aquele sujeito que não separava as dimensões do sagrado às coisinhas menores (aos nossos olhos) da vida terrena mudou todo um bairro, várias famílias e trouxe ao lugar, uma igreja solidamente edificada, num eclesiologia nada ortodoxa.


O grande desafio que todos temos é deixarmo-nos ser usados por Deus onde estamos, aqui e agora. Sem pensarmos em mudar de profissão, ou de situação, mas deixando-se guiar pelo Pai. E enxergando cada caminho aberto por Ele para que sejamos sal e luz. É entendermos afinal, que o nosso maior ministério, somos nós mesmos e não o que fazemos.

É isso, precisamente, que faz das nossas existencias, algo que valha a pena.

"Vós sois o sal da terra" Mt 5:13

2 comentários:

Sarah Catarino disse...

Extraordinário post,meu amigo. Como seria tudo diferente se vivessemos no tal "todo"!
Obrigada pela tua contribuição para abrir as mentes dos homens.

Dra. Costa disse...

Não conformar-se com o mundo, é a ordem, mas recriá-lo; onde estivermos, em que condições nos acharmos. ELE cabe em qualquer lugar, pois o propósito de nossas vidas é servi-lO. E assim, sermos completos. Ótimo texto.
Amplexo.