segunda-feira, 10 de agosto de 2009

PARÁBOLAS PARABÓLICAS - A História revista pela contemporaneidade

"O quê?" Gritou enfurecido o rei, diante da corajosa mas desaconselhável afirmação do profeta que, sem esperar tal reação, continuou a acusação em forma de parábola, buscando talvez, amenizar um pouco a árdua tarefa que, segundo afirmou depois (já sem os dentes e numa cela do palácio real), fora Deus quem o enviara a tal difícil tarefa.

O pobre homem viera, cheio de boas intenções, mas sem muito cuidado, como aliás convém a quem vai confrontar um soberano ou a um forasteiro em baile de garimpo.

"Sabes quem sou eu?" Esbravejou o Rei Davi, atirando pra tudo que é lado o que estava sobre a mesa real.

"Sou o ungido do Senhor e tu tens idéia do que isso significa? Sou o escolhido, o eleito, o preferido dos céus, o primeiro da nação", rasgando as vestes – não as suas, mas a do profeta, encolhido e nesse momento, suando mais que tampa de marmita.

"Sabe isso, seu verme, diante das escolhas erradas do meu antecessor, Saul, nunca fui capaz de dirigir-lhe uma só palavra de acusação e tu, um profetazinho meia-boca, vens insinuar que eu cometi adultério com a mulher daquele infeliz, o Urias, um soldado abestado que nem batalhar soube e agora vens culpar-me pela sua morte?"

Naquela altura, até os gatos que jaziam sonolentos como de costume no salão real, haviam desaparecido pela janela a fora e os serviçais todos já leiloavam o melhor lugar para ouvir – ainda que de longe – o arranca-rabo.

"Eu sou o Rei de Israel, lembras, ó verme? Eu sou o maior aqui e não foste tu ou outro mortal que me pôs em tão grande posição", espumava o enfurecido monarca judeu, ex-pastor de ovelhas, filho de Jessé.

"Quantas pessoas tu lideras? Quantas batalhas já venceste, seu religioso de merda! Onde estavas quando eu venci o gigante Golias? Quantos ursos ou quantos leões já mataste segurando-os pela barba? Lembra-te de Mical, a que me desprezou e ficou estéril? Pois é isso o que acontece aos que ousam me criticar ou oporem-se a mim!".

“Foi com Deus”, quase surrurrou Natan, emendando: “Ela ofendeu a Deus!”, encolhido diante da ira de Davi!

"O quê? Deeeeeuuussss?" Berrou o rei! "Saiba que EU, eu fui o ofendido e um dos sinais da minha unção, é que não passa batido nenhuma ofensa à minha pessoa! É isso o que acontece a quem me desafia!"

Todo mundo já conhecia o boato em Jerusalém, que o rei havia pulado a cerca real e papado a mulher do vizinho – a bela Beth-Seba (conhecida também por Betinha, a “garota da laje”, pelo seu hábito, comum na época, de bronzear-se sobre o telhado da casa).

Para piorar o bafafá, jurava a dona Nadir, filha de Zebedeu de Cafarnaum, filho de Otonielson, a copeira real, que a dita Betinha, que caíra na maldosa boca do povo até já estava à espera de um filho, fruto da traição.

Muitos, é claro, apesar de adorar um babado dos grossos como esse, não confiavam muito em toda a história, posto que a fonte da informação já de muito, tinha o hábito de divulgar “off record”, boatos sobre a vida privada e nada honrada de Davi. Mesmo com a grande probabilidade de isso ser verdade (a intimidade do sujeito era um desastre), o risco era grande. Podia- ser preso, perder-se a cidadania e, banido do reino. Ou coisa pior podia vir sobre o desafeto da casa real – desaparecer em algum “acidente inexplicável”, afinal, Davi era tido e sabido como “o ungido do Senhor”, o soberano Rei sobre o destino de tudo e de todos.

Como não tinham ainda inventado as mini câmeras escondidas dos programas da Rede Globo mas não existiam paredes seguras o bastante para impedir ouvidos bisbilhoteiros, a história, ou boato, vazou. E a coisa fedeu pneu queimado!

O Globo de Sião e O Shofar Popular, foram os primeiros a estampar em primeira página o sucedido todo em minúcias. Foi o caos completo!

Imediatamente, correram os marketeiros de plantão e o porta-voz do palácio a desmentir tudo. Aquilo era, segundo eles, mais um ataque dos inimigos de Deus e do Reino. Pura campanha de discriminação. Coisa de perseguição. Agentes dos que queriam derrubar Israel e o povo de Deus, anti-sionistas sórdidos.

O povo se dividiu.

Uns tatuavam nos braços – “Davi é o meu Rei e ninguém tasca”, “Israel até morrer” e, como era de se esperar, até um bem sucedido comércio surgiu: de auto-colantes, camisetas e bandeiras com as frases, a trazer lucro a alguém.

Outros, no lado oposto, proclamavam em alta voz fazendo referência às Escrituras que condenavam todo o sórdido ocorrido e o Rei pecador, a agir como um amalequita qualquer, inimigo do Senhor e da Sua lei, mas eram minoria e ninguém lhes deu crédito.

Beth-Seba, nessa altura, já legítima esposa do Rei, vem a público declarar: “Vocês não sabem com quem estão mexendo. A vingança virá e não só das nossas mãos”, tentando intimidar a imprensa que, desde aquela época, já era cheia de infiéis ateus e zombadores das ameaças divinas.

Para encurtar o caso, de Natan, pobre homem piedoso, nunca mais se soube.

Nunca mais foi visto no templo ou nas celebrações oficiais.

Correu um boato, sem confirmação, que acabou como vendedor de rua na Babilônia ou amparado em casa de alguns piedosos exilados no Egito, onde terá sido visto da última vez que dele se teve notícia.

Do filho da pobre e mal-afamada união, apesar de toda a versão oficial de que “o inferno não iria pôr-lhe a mão”, também nunca mais se falou.

É certo que, Suzi Salomé, filha de dona Nadir, filha de Gamaliel, filho de Darcilei, o hitita, uma garota que muitos acusavam de “prestar serviços obscuros” ao rei, sempre acostumado a atos secretos, e que obviamente não era lá de se confiar, chegou a jurar de pé junto, pouco tempo depois, que a pobre criança afinal morrera de uma enfermidade nova, trazida pelos porcos ou pelos mexicanos, ninguém sabe ao certo, nos braços do pai desesperado.

Séculos depois, a triste descendência de Davi, cheia de atropelos, vem afinal sucumbir por completo, quando o último dessa linhagem controversa, Genésio, filho de um carpinteiro, irmão de Tiago, que morreu de cirrose hepática e de outro, que morreu na cadeia por tráfico de pães asmos alucinógenos, vem também a morrer, pregado em dívidas de jogo, num fim de semana de Páscoa.

Eu vou parando por aqui.

Como bom judeu esse cronista, deixa aqui o seu testemunho sem mais detalhes e vai atrás do seu jornal e de umas ofertas pelo seu pecado – e correndo - pois hoje é Sábado e tudo fecha em Jerusalém.

10 comentários:

Sarah disse...

Olha, rapaz! Está o máximo, muito embora a expressão brasileira de raiz me passe um bocadinho ao lado. Mas aprecio a tua imaginação e relato "fidedigno" dos factos históricos...
Não sei é se vais ficar com cabeça muito tempo...há pra aí muito faiseu á espreita!

Danilo Fernandes disse...

Rubinho fio de deusi!

To me apertando de tanto rir!

Vou publicar, mas com um subtitulo.

David e a garota da lage! kkkkkk

Bastava musicar com o veio Vinicius e dava um peça de vanguarda!

kkkk


Beijos


Danilo

Rubinho Pirola disse...

Só tenho uma observação a fazer. Muitos dos termos (e a grafia) são brasileiras, portanto, aos meus amados portugueses, peço que me perdoem e, seguindo o que faziam os do tempo bíblico ao perguntarem: "Senhor, explica-nos a parábola!", ponho-me à disposição de vocês.
Ah! E as semelhanças, NÃO são meras coincidências...

Betânia Pirola disse...

Adorei! Abro mão do tempo que me é devido para que escrevas mais "perolas" como esta!
Você é mais que bom!!

Betânia Pirola disse...

Ah! Que coincidência!! Dei o mesmo título que o Danilo disse...rsrsrs

Brissos Lino disse...

Esse judeu é fogo...
Olha, amigo, parti-me a rir, para não chorar. E lembro que esse rei David não aprendeu a ser assim como o pai dele, que conheci em São Paulo(o tio Cássio), homem humilde e íntegro...

Rubinho Pirola disse...

Meu amigo Brissos!

Tem tanto pilantra que nem sei a quem você está a se referir. E tem tanta coisa aqui que cabe a carapuça em muita gente.
Conheci o Tio Cássio sim e fomos amigos. Um evangelista que fez história em S.Paulo.
Um abraço.

Deborah disse...

Rubinho, muito bom!!! Adorei a maneira didática que vc conta as histórias!!hehehe. Como pedagoga tenho que admitir que busco essa linguagem com as crianças. Muito boooom!

Rubinho Pirola disse...

Obrigado, Déborah!

Fica fácil, quando tem-se imenso material para trabalhar. Infelizmente, como já não vale apontar os exemplos de homens de Deus aos que se desviam do caminho, então vamos lá ver se, trocando a vida dos homens de Deus e fazendo-os agir como os pilantras, se estes não "caem na real".
Um abração. E obrigado.

Cíntia Verdeiro disse...

Quem dera o Renato Russo tivesse vivo ainda, parecia ouvi-lo cantar isso, se o Faroeste Caboclo fez sucesso? essa entraria para o Guines...
Bao demais da conta sô!
A garota da lage foi do melhor, só não podia é da barraco como vi lá no Caldeirão do Ruc kkkkkkkkkkkkkkkk...
Bjs!
Cíntia