quarta-feira, 1 de julho de 2009

A virtude da dúvida


"...Porque o SENHOR não vê como vê o homem,
pois o homem vê o que está diante dos olhos," 1 Sm 16:7


Há bem poucos dias atrás, recebi um telefonema.

Era uma ouvinte do norte do país, outra de centenas que nos contactam com testemunhos que têm tido com o nosso programa que tem como maior característica, apresentar o conteúdo bíblico, tanto quanto nos é possível, sem aditivos, promoção de denominações ou personalidades, pastores, esquemas religiosos, essas coisas.

Ela estava aflita.

Fora-lhe diagnosticado uma espécie de esquizofrenia, manifestada quando fora abandonada pelo marido (até a data, um cristão-normal, segundo as suas palavras) e, como se não bastasse a humilhação, trocada por outra.

Já não bastasse toda a dor da enfermidade, contou-me ainda a jovem senhora, sobre a condenação, direta ou nas entrelinhas, por parte da sua comunidade pelo seu falhanço em "conseguir pela fé a sua cura". Se ela estava doente, por certo, havia algo errado na sua relação com Deus, vaticinavam os evangélicos-kardecistas, na melhor teologia (anti-bíblica) da "causa-e-efeito".

Pois bem, ao ouvir por meses o nosso ensino bíblico (bom mesmo, diga-se de passagem), na FM da sua região, encheu-se de coragem e ligou para saber, de alguém em quem aprendeu a confiar, algo precioso: Como poderia ela saber se as visões e vozes que ouvia vinha ou não de Deus, se eram ou não fruto de uma mente necessitada de ajustes, químicos, mecânicos, sei-lá-o-quê.

Abrindo-lhe o meu coração, confessei-lhe o mesmo grande problema, que tenho há anos (desde que me entendo por gente): Eu precisamente sempre tive problemas em saber se o que os meus olhos vêm são ou não reais.

Acaba que vez por outra, padeço do mesmo mal, o de tomar por verdade as circunstâncias e coisas que vejo, toco, experimento com os meus sentidos todos, e que no fim mostraram-se só serem impressões e miragens.

Confidenciei-lhe, quase em tom de confessionário, das vezes em que amedrontei-me por só ver barreiras irreais, tornadas intransponíveis pelos meus olhos (que apesar de míopes, enxergam quase bem), caídas com um simples sopro de Deus.

Ou dos inimigos minúsculos que, aos meus olhos, tornaram-se em gigantes ou em número assustadores inflacionados a fazer com que os meus joelhos tocassem castanholas.

Ou das vezes em que ouvi vozes que, afinal, não eram do alto, como eu julgara, mas do acusador, ou da minha mente ansiosa e aflita.

Ou dos dias em que passei a meditar se sobre o significado dos sonhos que tive, se eram ou não revelação de Deus e que mais tarde, provaram vir de alguma feijoada mau digerida.

Pouco a pouco, compartilhei com ela que, sem medo de estar a contradizer Jesus, quando corrigiu a Tomé na sua falta de fé, que também são bem-aventurados os que "duvidam do que vêm".

De termos mais cuidado com aquilo que tudo que se pode ver, ouvir (até o que se ouve nos púlpitos), tocar, cheirar...

E tomarmos sempre a cautela de checar, conferir, examinar e passar as situações, sentimentos, coisas que se ouvem, que nos dizem, que nos afirmam, pelo crivo de uma baliza mais segura e incapaz de mudar a toda hora como o nosso coração - enganoso, corrupto e corruptível - um 171 irrecuperável e que deve ser mantido no cabresto curto e firme.

Logo pela manhã, com aquele telefonema, pude abençoar a irmãzinha: Amada amiga, você é normal, sadia, sábia e bem-aventurada!

Enquanto estiver preocupada em saber, com firmeza, em que mato você está lenhando, estará melhor do que muita gente.

Enquanto essa sua preocupação em saber se o que vê é real ou não, você é sadia.

Doidos, somos nós, meu anjo. Doidos somos nós.

"Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas." 2 Co 4:18


3 comentários:

Anônimo disse...

QUE MARAVILHA ESTE TEXTO, ABENÇOOU MUITO MINHA VIDA!!!
CUMPRIMENTOS

Muller disse...

Ola!

Muito edificante o texto..ah vamo dexa de formalidade, muito legal o texto, reflexivo, inteligente, engraçado também.
Concordo plenamente quando escreves:
"E tomarmos sempre a cautela de checar, conferir, examinar e passar as situações, sentimentos, coisas que se ouvem, que nos dizem, que nos afirmam, pelo crivo de uma baliza mais segura e incapaz de mudar a toda hora como o nosso coração - enganoso, corrupto e corruptível - um 171 irrecuperável e que deve ser mantido no cabresto curto e firme."
Foi-me de grande valia neste momento!

Se tiver um tempo passe no meu bloguinho:

palavranova.blogspot.com

Que a paz de nosso unico Senhor esteja sempre sobre sua vida.
Abraço

Meire disse...

Que bom que nossa irmã foi liberta desse teorema ridículo, onde a a falta de fé é a causa do problema que bate a porta de toda e qualquer pessoa, seja ela cristã ou não.