terça-feira, 28 de julho de 2009

O Evangelho de Barrabás


"...disse-lhes Pilatos: Qual quereis que vos solte?
Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?" Mt 27:17

Nunca sabermos ao certo quem foi o sujeito.

Mas é certo, segundo o que as Escrituras nos revelam, que Barrabás era um agitador, um dos cabeças de um determinado levante ou movimento social qualquer, que culminou na morte de alguém e, segundo João, um ladrão, roubador, um bandido "notório".

Nem imagino se era feio como pintou-o Mel Gibson no seu recente "The Passion of The Christ", mas o que sempre chamou-me a impressão, foi o fato do povão, que seguia Jesus, que bebia dele, que ouvia o que ele falava, que fora servido por ele e que, dias antes o aclamara na sua entrada triunfal em Jerusalém, a babar-lhe: "Hosana, hosana ao que vem em nome do Senhor!" trocou-o pelo enfim bandoleiro.

Parece certo, na minha perspectiva, que naquele momento de decisão, o povo teve uma antevisão do que estava em jogo: A cruz - ou Jesus - com os seus benefícios e perspectivas espirituais, subjetivos ou adiados para uma realidade incerta e improvável como o céu - e ao que Barrabás representava - uma ética questionável, mas algo mais terra-a-terra, mais próximo da turba, algo bem mais de encontro aos benefícios pessoais imediatos que povoam os sonhos dos simples mortais.

Barrabás era, por certo, alguém com algum apelo popular - que agradava ao povo (imagino eu que o motim, de que era acusado de participar, como quase todo, partia de algum apelo reinvidicatório e de encontro às conveniências, senão da maioria, ao menos de um bom grupo).

Ele era talvez, como desses, igual a centenas de políticos que, apesar de roubarem, trapacearem, tirarem proveito do que não lhes pertence, contrariamente ao que seria lógico imaginar, ainda fazem sucesso, viram até heróis, por terem conseguido chegar lá, como uma raposa à porta do galinheiro, ao pote de ouro ao fim do arco íris, aos benefícios, às mordomias, ao sonho, venha da maneira que vier, pondo a mão (que podia bem ser a nossa!) em muita coisa apetecível.


Ao ouvir as pregações dos bandidos de paletó, gravata e Bíblia na mão, chego a ouvir o "Qual quereis? Jesus ou Barrabás?". A cruz, o céu, a paz com Deus (e as perseguições, o abrir mão das regalias, dos direitos, o amar por obrigação, não por prazer, o perdoar, o andar a segunda milha...), ou a conveniência, o chão, a paz dos "Vasliuns" e dos "Prozacs"*, ou o torpor trazido pela fantasia da glória humana realizada?

O servir ao que prometia a cruz e o cálice de gosto intragável,... ou a ética condenável mas conveniente do bandido que está onde eu desejava estar (afinal, desde lá, bonzinho só se ferra. Bandido que é bandido, dá-se sempre bem).

E a malta, como naquele dia, na sua maioria, preferiu o outro evangelho, a "outra boa notícia" - a que vale a pena saciarmos o ventre, realizar o gosto que, afinal, dá-se sempre um "jeitinho" e livra-se a cara, safa-se das possíveis consequências. A vida nos ensina isso. A história prova-o.

Luta por luta, vamos mais saciar o nosso desejo, o nosso ventre (só temos uma vida, não?).

E que ninguém se engane: Essa decisão se nos apresenta a todo instante. O preço da vida com Cristo e os benefícios de preço algum.

Ah! E me perdoe, Edir Macedo. Mas, riqueza, poder e número de seguidores não são ainda, sinais da aprovação e bênção de Deus à vida de ninguém. Se assim fosse, Barrabás, certamente, não contaria com a aprovação da maioria. E não também escaparia naquele dia maldito.

PS: Valium e Prozac são marcas registradas dos laboratórios Roche e Lilly, respectivamente, e não estão a pagar nada pela referência! Ainda não estou fazendo dinheiro com o que creio. Nem pretendo!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Estou de volta para o meu aconchego...


Voltei.

Com uma saudade enorme da minha casa.

E descobri surpreso, que a minha casa não é um lugar,
mas um tempo.


Um tempo onde tenho os amados à mão,
ou à distância de um abraço.


Um tempo onde os seus rostos
não são somente uma foto pendurada na parede dos meus afetos.


(A vida de um viajante não é fácil!)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Indignação em forma de cartoon!

PARA LER MELHOR, CLIQUE SOBRE O CARTOON!


"E Jesus, respondendo-lhes, começou a dizer:

Olhai que ninguém vos engane;" Mc 13:5


Quando era pequeno, lá pelos meus 10, 11 anos, no interior de São Paulo, os meus amigos queriam só saber de futebol.

Alguns, mais avançados para a idade, queriam saber já das menininhas que começavam a aparecer aos seus olhos como mais um dos regalos da vida.

Eu não. Eu já queria mais, queria derrubar o governo.

Vivíamos lá nos idos da revolução e eu, ao ver todo aquele ódio contra os "terroristas", jargão oficial usado para definir os que simplesmente, discordavam daquela bandalheira toda e autoritarismo, promovido pelos que tomaram de assalto a nação; desconfiava que algo ruim acontecia e nada que encontrasse eco na Palavra de Deus que, por aquela altura, já se fazia claridade ao meu coração.

Quando cheguei aos 14, quando Jesus revelou-se a mim como mais do que religião e crendice de família, o meu pai, coitado, respirou aliviado ao pensar que o temor de ter um filho bandeado para os lados dos "que comiam criancinha" (no sentido literal do termo), o lado dos terroristas-comunas-safados, inimigos de Deus e da pátria, como queiram que se denominavam os que insistiam em andar à margem das leis - de exceção é bom que se diga - naqueles tempos difíceis.

Ledo engano a do meu velho.

Com o Evangelho no coração e a solidariedade ao pobre, ao marginalizado e desprezado que brotava do meu coração transformado, fiquei ainda pior. Dos cartoons que insistia em por - ou tentar a por nos jornaisinhos de colégio ou do cursinho, passei a reunir-me com toda gente que dizia não ao opressor, ao inquisitor, viesse ele de onde viesse.

Eu cresci, o país mudou, o mundo mudou... (tirando Honduras onde um punhado de militares insistem na desgastada fórmula de usar aquilo que são de pior - forças e armadas - estão a tentar divulgar a sua "versão oficial" da história) continuo o mesmo. Ou talvez pior. Mais velho e mais mau-criado.

E inimigos não faltam contra quem lutar.

Aos inimigos que insistem em fazer da cruz algo de que usar para roubar e tirar proveito em detrimento dos outros, vai agora a minha indignação feroz. Não dá para calar-me e fazer como fazem as pessoas na sala de jantar (e nas igrejas) "ocuparmo-nos em nascer e morrer"...

Já disse, dia desses a um irmão que tem feito aqui em Portugal, apologia (cristã, imagine) do nazi-fascismo: "na minha mesa, rapaz, cabem prostitutas, bêbados, gente que faz aborto, pecadores vários, mas aquilo não é mesa da "mãe-joana". Tenho princípios, meu velho. Lá não cabem os que dizendo-se irmãos, são guiados de um espírito usurpador, roubador, presunçoso que se acha mais do que outros e que explora, "costurando o véu que a cruz já rasgou", que pretendem capitaniar, controlar, explorar o que é livre, vendendo a graça que veio, de graça, do sacrifício de Cristo".

Para esses, os picaretas falsos-apóstolos-profetas-evangelistas-pastores-doutores, por quem não oro, confesso, e nutro o mais profundo desprezo, vai o meu cartoonzito de hoje.

E aproveitem, porque hoje estou calmo.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A maldição da fita métrica II

"O líder cristão não precisa de títulos.
E quando os têm não os usa." Ariovaldo Ramos

Há um problema real conosco.

Talvez, esse problema tem a ver com alguns parâmetros errados na balança dos nossos julgamentos, na fita métrica com que medimo-nos uns aos outros e, principalmente na medição do valor e honra que julgamos merecer.

Já basta eu me sentir triste - confesso - quando esquecem-se de mim, quando, julgo merecer algo.

Confesso e pronto. Eu me conheço. Sei do egoísta que existe em mim, para além dos muitos que se apresentam atrás de títulos, cargos, adjetivos e de cartões de visita com quilos de peso, a nos dizerem quão importante são. Dos que agregam ao nome, quando se apresentam: pastor-fulano, ou apóstolo-sicrano...


Tem até horas até - imaginem - em que chego a acreditar que os elogios que me dirigem e os confetis que me atiram, são merecidos.

Acontece que, graças à misericórdia do Pai ainda (e espero poder contar sempre com isso, até ao fim), Ele me lembra sobre algo que aliás, já aprendi: o tamanho de Deus é sempre inversamente proporcional ao tamanho que eu julgo possuir, aos meus próprios olhos.

É assim: toda a medição, toda escala de valores, tem de levar em conta alguns parâmetros, com os quais avalia-se tudo o mais.

Somos maiores a que, a quem? A que nos comparamos?

E a coisa resume-se nisso: quanto maior Deus é na minha vida, tanto menor sou eu. Quanto maior eu parecer a mim, medido pela minha fita métrica, tanto menor Deus será.

Essa era a fita métrica de João Batista (lembram-se? "O maior dentre os nascidos de mulher"). Dizia ele: "Convém que Jesus cresça e que eu diminua". Não tinha outra hipótese.

Foi o que Paulo (o grande!) dizia: "O poder de Deus se aperfeiçoa na minha fraqueza" e ainda "...porque quando estou fraco então sou forte".

O problema é a nossa fita métrica...

Paulo, conforme ia conhecendo Deus, o seu amor, a sua graça, o seu poder, mais ele ia crescendo. Para baixo! Isto mesmo: para b-a-i-x-o-!

Vejam essas afirmações e a ordem cronógica de quando fê-las:

Ano 55 (logo após a sua conversão): "Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus." (1 Co 15:9)

Ano 60: "A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar aos gentios as riquezas inescrutáveis de Cristo," (Efésios 3:8)

Ano 64 (pouco tempo antes da sua morte): "Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal." (1 Timóteo 1:15)

Compreendeu? Quanto mais esse conhecia Deus, tanto menos se enxergava. Ou fazia-o pelas lentes da graça - tudo por Deus e para Deus!

Que Deus nos ajude a corrigir essa fita que carregamos...
Essa é a minha oração de hoje!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A virtude da dúvida


"...Porque o SENHOR não vê como vê o homem,
pois o homem vê o que está diante dos olhos," 1 Sm 16:7


Há bem poucos dias atrás, recebi um telefonema.

Era uma ouvinte do norte do país, outra de centenas que nos contactam com testemunhos que têm tido com o nosso programa que tem como maior característica, apresentar o conteúdo bíblico, tanto quanto nos é possível, sem aditivos, promoção de denominações ou personalidades, pastores, esquemas religiosos, essas coisas.

Ela estava aflita.

Fora-lhe diagnosticado uma espécie de esquizofrenia, manifestada quando fora abandonada pelo marido (até a data, um cristão-normal, segundo as suas palavras) e, como se não bastasse a humilhação, trocada por outra.

Já não bastasse toda a dor da enfermidade, contou-me ainda a jovem senhora, sobre a condenação, direta ou nas entrelinhas, por parte da sua comunidade pelo seu falhanço em "conseguir pela fé a sua cura". Se ela estava doente, por certo, havia algo errado na sua relação com Deus, vaticinavam os evangélicos-kardecistas, na melhor teologia (anti-bíblica) da "causa-e-efeito".

Pois bem, ao ouvir por meses o nosso ensino bíblico (bom mesmo, diga-se de passagem), na FM da sua região, encheu-se de coragem e ligou para saber, de alguém em quem aprendeu a confiar, algo precioso: Como poderia ela saber se as visões e vozes que ouvia vinha ou não de Deus, se eram ou não fruto de uma mente necessitada de ajustes, químicos, mecânicos, sei-lá-o-quê.

Abrindo-lhe o meu coração, confessei-lhe o mesmo grande problema, que tenho há anos (desde que me entendo por gente): Eu precisamente sempre tive problemas em saber se o que os meus olhos vêm são ou não reais.

Acaba que vez por outra, padeço do mesmo mal, o de tomar por verdade as circunstâncias e coisas que vejo, toco, experimento com os meus sentidos todos, e que no fim mostraram-se só serem impressões e miragens.

Confidenciei-lhe, quase em tom de confessionário, das vezes em que amedrontei-me por só ver barreiras irreais, tornadas intransponíveis pelos meus olhos (que apesar de míopes, enxergam quase bem), caídas com um simples sopro de Deus.

Ou dos inimigos minúsculos que, aos meus olhos, tornaram-se em gigantes ou em número assustadores inflacionados a fazer com que os meus joelhos tocassem castanholas.

Ou das vezes em que ouvi vozes que, afinal, não eram do alto, como eu julgara, mas do acusador, ou da minha mente ansiosa e aflita.

Ou dos dias em que passei a meditar se sobre o significado dos sonhos que tive, se eram ou não revelação de Deus e que mais tarde, provaram vir de alguma feijoada mau digerida.

Pouco a pouco, compartilhei com ela que, sem medo de estar a contradizer Jesus, quando corrigiu a Tomé na sua falta de fé, que também são bem-aventurados os que "duvidam do que vêm".

De termos mais cuidado com aquilo que tudo que se pode ver, ouvir (até o que se ouve nos púlpitos), tocar, cheirar...

E tomarmos sempre a cautela de checar, conferir, examinar e passar as situações, sentimentos, coisas que se ouvem, que nos dizem, que nos afirmam, pelo crivo de uma baliza mais segura e incapaz de mudar a toda hora como o nosso coração - enganoso, corrupto e corruptível - um 171 irrecuperável e que deve ser mantido no cabresto curto e firme.

Logo pela manhã, com aquele telefonema, pude abençoar a irmãzinha: Amada amiga, você é normal, sadia, sábia e bem-aventurada!

Enquanto estiver preocupada em saber, com firmeza, em que mato você está lenhando, estará melhor do que muita gente.

Enquanto essa sua preocupação em saber se o que vê é real ou não, você é sadia.

Doidos, somos nós, meu anjo. Doidos somos nós.

"Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas." 2 Co 4:18