quinta-feira, 19 de março de 2009

A difícil fantasia de Super Homem (a propósito do Dias dos Pais, umas dicas...)


* Hoje, Dia dos Pais em Portugal, preparei umas notas que pretendo, será uma palestra, numa instituição social, recheada com a minha pobre pretensão de repartir algumas dicas, baseados nas coisas que aprendi, com muito tombo (e algum choro), nessa minha vida de pai....


Para além de pastor, sou profissional da área de comunicação. Fui professor de BD por mais de 15 anos numa universidade federal no Brasil, coordenador de grandes projectos sociais e de mobilização, desde muito, lido com gente. Pessoas - crianças e jovens de tudo que é idade e condição. Tenho ainda duas filhas, dois netos, um genro (conhecido) e muitos, muitos filhos por adopção.

Nessas áreas de experiência, andanças e vida, constatei, nessa curta experiência de vida (50!) que a maior necessidade que existe hoje nas pessoas, que o maior problema dos homens é um só. Se me trouxerem alguém com problemas comportamentais, sociais, íntimos, e analisarmos a fundo, vamos resumir a coisa toda num diagnóstico aparentemente simplista: GENTE COM FALTA DE PAI!

Sim, porque o que mais há nesse mundo, são FILHOS À ESPERA DE ADOPÇÃO.

E o pior (?): Filhos órfãos de pais vivos! E não digo isso somente a contemplar, com um misto de indignação e de solidariedade – e de impotência como cidadão – a escassez de tempo, a escravidão dos nossos horários de trabalho, que nos ocupa, e nos rouba a nós, pais e mães o tempo com os seus familiares e faz com que confiemos aos outros – avós, infantários, instituições, escolas e outros - o que de melhor podemos deixar ao mundo - os nossos filhos.

Como pesquisador de BD (História em Quadrinhos, no Brasil) aprendi um bocado sobre como se criam os mitos. Sejam eles mitos religiosos, ídolos, artistas, desportistas… a elaboração da imagem do que é super, é igual.

Na nossa vida como gente, essa construção começa já na infância, quando encontramos na figura do pai, o nosso primeiro arquétipo, modelo de gente, com uma pitada de super, uma pitada de Deus e um alvo a ser copiado e admirado. Assim construímos nós, homens ou mulheres as nossas primeiras referências do ser gente, mirando-se nos nossos pais.

E ai, a figura do homem ganha até uma distinção clara da imagem da mulher-mãe, como ideal de homem, do herói, que tem força, provê necessidades, protege…

E nesse papel como pais, vestindo sempre essa fantasia de super gente em que os filhos acreditam, não é fácil.

Roland Barthes, o sociólogo-filósofo e semiólogo francês descreveu a estrutura de construção do mito na obra “Mitologias”, como nascem e mantém-se os ídolos. Para ele, o mito é alguém que encarna as minhas impossibilidades; aquele que realiza o que me é impossível; alguém que não é sujeito às mesmas limitações que eu (nas crianças pequenas, isso engloba a realização de coisas triviais, mas para elas inatingíveis, tais como abrir: uma garrafa, cortar um bife,… empinar um papagaio, equilibrar-se numa bicicleta,… pagar as contas todas de casa,… resolver todos os problemas caseiros e familiares…).

O problema em casa é que, logo, mais cedo ou mais tarde, os nossos filhos nos descobrem a verdadeira identidade, o segredo escondido, aquilo que tentamos esconder e que nas histórias de super-heróis, esconde-se com máscaras, cavernas, fantasias… (e convenhamos, ninguém vive satisfatoriamente de máscaras!). Cedo, descobrem eles as nossas limitações, deslizes, a dificuldade em viver-se em família (com a esposa…) com os bancos, com o emprego…

Mas como ajudar os filhos a serem gente, de carne e osso, mas capazes de sobreviver num mundo tão maluco e desafiador como o nosso?

AQUI, OUSO PASSAR ALGUMAS DICAS APRENDIDAS NA MINHA VIDA COM OS FILHOS QUE ADOPTEI (MESMO COM AS MINHAS DUAS, NATURAIS, DA DIGAMOS, “BARRIGA”, MAS IGUALMENTE ADOPTADAS UM DIA).


1) NUNCA ECONOMIZE CARÍCIAS COM OS SEUS FILHOS

Eric Barnes – Um psiquiatra canadiano desenvolveu o conceito de strokes (adoptado no Brasil, por carícia, toque, estímulo e reconhecimento). E disso, precisamos todos.

Todos nós temos uma necessidade nata de reconhecimento, qualquer sinal que eu não sou invisível para alguém.

Vale o beijo, o abraço, o afago, mas também o “olá, bom dia!”, um elogio, uma observação… até um tapa, desde que nos lembrem que existimos.

Harlow, na investigação científica “Amor em Filhotes de Macacos”, constatou que a estimulação táctil é tão importante quanto o alimento no desenvolvimento (macacos preferiam mães de pano a outra, de arame, embora com beberón - mamadeira no Brasil - a satisfazerem-lhes a necessidade vital de alimento. Embora sem nada a oferecer, o colo confortável os atraia).

Levine, outro investigador – afirmou, com outros experimentos, que qualquer estímulo, ainda que negativo é melhor do que o abandono (E até são capazes de influenciar o nosso sistema imunitário!!!).

Filhos pedem contacto físico!

Me perdoem os mais frios e fechados a essas demonstrações de afecto, aos toques, aos afagos... mas nem tudo o que a cultura popular e até o que os seus pais lhes ensinaram é válido no que toca a essa maneira "europeia e fria de ser". Para si como para os filhos. Até os animais mais aparentemente "distantes", reagem e demonstram apreciar os afagos.

Abraços, beijinhos, elogios,… vale tudo.


* Hoje os comportamentos estão a ser ditados por doentes, ao invés da virtude, o que rege as normas sociais de conduta é o desvio, a perversidade. No Reino Unido, por exemplo, os pedófilos estão inspirando a proibição de contacto físico nos infantários e creches (para evitar-se os problemas, deixa-se uma criança de um, dois anos, sem limpeza alguma após uma ida à casa de banho, onde a professora ou monitora os assiste à distância,…). Já nos é contra-indicado um abraço, ou uma festinha à um bebé ou criança nas ruas para não sermos mal interpretados. O que era pra ser algo saudável e até importante para o desenvolvimento dos pequenos, deixou-se de lado, por conta de quem merecia coisa alguma, no caso, os de comportamento desviante. Trocou-se a virtude como origem dos comportamentos, pelo desvio. O resultado disso? Duvido que seja saudável.


2) RESISTA À TENTAÇÃO DE SER INFALÍVEL E DE TEMER TIRAR AS SUAS MÁSCARAS.

Não use máscaras com os seus filhos. Esteja pronto a compartilhar toda a “dor e a delícia de ser o que é” (Caetano Veloso), de ser meramente humano, mortal e… falho.

Agindo assim podemos ajudá-los a superarem as suas próprias limitações…

Todo mundo adquire as suas máscaras, ou está propenso a ganhá-las na vida ("Que filhinho lindo – ele nunca chora, nunca fica doente"… ou então, "Que filho complicado, é chorão, é muito frágil…"). Ai, quando menos se espera, alguém começa a gostar dessas máscaras sociais e vive apertado o resto da vida. QUANDO DESCOBRIMOS, OU PENSAMOS NÓS, QUE SÓ SOMOS IMPORTANTES, SÓ SOMOS VALORIZADOS, SÓ CHAMAMOS A ATENÇÃO, E RECEBEMOS CARÍCIAS SE USAMOS ESSAS MÁSCARAS (nunca chorar, nunca dar problemas… ou ficar doente, ou ter problemas sérios…). E NINGUÉM, VIDA NENHUMA PODE SER SATISFATÓRIA USANDO-SE MÁSCARAS…

O seu filho NÃO PRECISA DA SUA PERFEIÇÃO, MAS DA SUA INTEGRIDADE – Errar é normal. O lutar contra o erro, as nossas limitações é digno. Errar é humano. Corrigir os erros, ao assumi-los e as suas consequências é algo digno. E a sociedade precisa disso.


3) SEJA DILIGENTE EM DISCIPLINAR OS SEUS FILHOS

Filhos precisam de direcção, de orientação e… disciplina. Disciplina não é escravidão, nem opressão.

Uma das necessidades primordiais dos filhos, é a FOME QUE TODOS TEMOS DE ESTRUTURAS.

Dormir cada dia numa cama é péssimo. Viver cada dia num lugar diferente é horrível, isso mostra como precisamos de balizas, de marcos e de estacas.

A minha esposa (e mãe exemplar!), sempre diz algo importante: Filhos precisam de duas coisas – RAÍZES E… ASAS!

Quando sabemos da qualidade do que passar a eles, de estruturas, de princípios, não precisamos ter medo de soltá-los.

Honra, honestidade, verdade, fidelidade, amor, civismo, consciência e valores de cidadania… Devem ser tão importantes como o pão pra boca.

*Mesmo que você venha a falhar nessa área, não tenha medo de assumir isso e mostrar a eles a sua consciência do erro, do reconhecimento disso e a disposição de se voltar atrás (não conseguimos esconder-lhes nada). E precisamos ai, ensinarmo-lhes o valor de pedir-se perdão e as desculpas pelos erros.

Ah! E deixemos com aquilo de discordar e usar uma disciplina da mãe e um possível descontentamento dos filhos para ganhar vantagem sobre ela numa crise – aliás, o respeito pelos pais, começa com o exemplo de amor, dedicação e respeito entre o casal!


Outra coisa: Os nossos filhos não podem aprender a venderem-se por dinheiro algum!

Precisamos de passar a eles que não somos regidos por amor ao dinheiro, mas ao trabalho. Hoje os profissionais parecem querer mais o nosso dinheiro do que nos servirem – médicos, parecem querer o nosso dinheiro ao invés de nos verem curados. Advogados, o nosso dinheiro do que defender os nossos interesses e prevalecer a justiça. E saíram eles de onde? Das nossas casas – quando foram ensinados a procurarem profissões que davam dinheiro ao invés de algo que condizia com o que gostavam e as suas aptidões, talentos e dons.


· Corrigir não é descarregar a sua raiva e desapontamento – mas a chance de poder mostrar-lhes que se interessam por eles, que os amam e que isso é para o bem deles. Quem não é corrigido em casa, o é pela vida, pela escola (punição sempre vergonhosa), pela polícia…

*(Em nossa casa, disciplinar era uma cerimónia, com direito à uma varinha que ficava guardada num lugar inacessível e que requeria tempo e esforço para que a apanhássemos, até que a raiva se nos passasse. Assim, não corríamos o risco de passarmos dos limites).


4) DEDIQUE-LHES TEMPO. SEJA CRIATIVO!

Uma das fomes naturais do homem (e dos casamentos…) é a fome por incidentes – experiências novas.

Arranje tempo de qualidade com os filhos, invista neles…

Viaje, arrume passeios, pic-nics, passeios de bicicletas,… exploração, brinque, brinque, brinque e ria, ria muito com eles…

· Essa era a nossa experiência em casa – ao invés de deixar as nossas filhas brincarem sabe-se-Deus-onde, preferíamos sempre oferecer a nossa casa como o principal Play-ground ou parque de diversões e chamar para ali os seus amigos.


Uma última dica.

Aprendi essa lição quando ia dar uma prenda de Natal à Raquel, nossa filha que vive em Londres.

Num cartão que acompanharia o presente, escrevi todos os motivos e qualidades que nos fazem amá-la e querida por todos – especialmente por mim.

No meio da lista porém,… fui tocado por Deus.

Eu não estava a ser honesto. Afinal, eu a amava e isto estava acima das circunstâncias.

Não é porque acerto que sou amado por Deus e também a verdade é que desejo ser amado e querido pelas pessoas, mesmo que venha a falhar. Seria impossível, do outro modo, posto que sou feito de carne e osso e passível de experiências terríveis com as minhas incoerências.

A verdade é que naquela tarde, assentado numa mesa de café, arrazoei e acrescentei-lhe, corrigindo a mim mesmo, um “MAS TAMBÉM, MINHA FILHA, AINDA QUE… – mesmo que você venha a falhar, saiba que sempre será amada, e sempre poderá contar comigo e o meu colo de pai. Mesmo que venha a falhar, eu serei o seu abrigo.

Não é preciso dizer que foi maravilhoso fazê-la saber, como precisamos fazer saber os nossos amados que o amor é uma decisão, não um sentimento. Como é decisão a adopção, o VOLUNTARIAMENTE abrir da nossa afectividade e a determinação de investir na vida deles.

Isso é ser super. Mais do que isso, é ser humano. É ser PAI.

Como aliás tenho aprendido com o meu maior – o meu Deus.


Feliz Dia dos Pais!

3 comentários:

Paulo R. Luciano disse...

Simplesmente maravilhoso, amado irmão Rubinho.

Obrigado por este texto!!! Você foi usado por Deus ao escrevê-lo!!
bênção!!!

Lara Gisela disse...

Rubinho, muito obrigada por esta mensagem linda.
Bjs

Dra. costa disse...

Suficiente!
Parabéns pelos escritos que encontrei por aqui. Amplexo.