sábado, 12 de dezembro de 2009

Ó coração idólatra!

Li num dia desses na imprensa que o Patriarca da Igreja Copta etíope declarou que a arca da aliança estaria naquele país africano.

Houve um burbirinho e não só entre os judeus. Tem muito cristão que tremeu de alegria, afinal, damos tudo por uma relíquia religiosa pois a propensão à idolatria é marca registrada da alma humana.

Vá gostar de adorar um símbolo, um íconesinho, qualquer que seja, lá longe. Só de lascas da cruz, comercializadas, colecionadas há anos atrás, dava para a humanidade construir uma para cada habitante do planeta.

É assim: Deus trouxe leis para guiar, para orientar, para por ordem na bagunça, dar balizas sociais ao povo e pronto: como quem admira a moldura ao invés do quadro, passou-se a valorizar a letra mais do que o seu espírito e, ao invés dessas servirem ao homem, ao seu bem estar e à paz na vida em sociedade, usaram-na para oprimir e escravizar.

E foi sempre assim. Ao invés de adorar ao que não se vê, é mais fácil desenhar algo que imaginamos, uma estatuazinha e pronto. Já podemos ver e tocar - e até carregar no bolso Aquele que nos criou (Freud deve explicar essa coisa toda quando tratamos Deus como qualquer coisa, do que fazemos o que queremos e, ao invés de nos movermos por Ele, carregamo-Lo por onde e do modo que entendemos).

Há os que matam o cônjuge, só para salvar o casamento. Para preservar a instituição, faz-se de tudo, até arrebentarmos com o parceiro. Estes, casaram-se não um com o outro, mas com o casamento em si. Para defender a fé, mata-se o contrário, o que tem convicções diferentes. E pior: fazemos isso em nome de... Deus!

A igreja, a instituição, que era para ser um organismo, vira organização, estrutura, e vale mais do que o povo que dá corpo à coisa, tornada um monumento, rígido, estático, imóvel, frio, sem vida e... opressora, que mata os seus membros para manter-se de pé.

Desde sempre, o propósito é outro: Deus procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade. Que o busquem, que gastem tempo consigo e com Ele andem. Vendo-O ou não, ouvindo Dele orientações claras ou não. Na luz ou na sombra da morte.

Andar pela fé, tem a ver com isso: crer no que não se vê, mas que se conhece apesar dos olhos não enxergarem, as mãos não tocarem. Não é fácil, nem cômodo. Mas por certo, é maior e mais profundo pois não nos deixa à mercê da nossa limitada e rasa visão da vida.

Assim, sem que O reduzamos a um pedaço de gesso, pau, pedra... ou às paredes de um templo que podemos construir com as mãos, podemos abrir as nossas mentes e coração para o tamanho que Ele tem - imensurável e transcendente. Ou então transferir à criatura, líder, apóstolo, bispo, pastor,... seja o nome que isso tiver - pretensamente dotada de procuração do Altíssimo - toda a devoção e submissão só devidas ao Senhor. É bem mais fácil. Como é fácil, carregar uma imagenzinha safada no bolso ou tê-la nas mãos.

Como aliás vimos não só na história da igreja cristã como nos nossos dias...

"...Eu derrubarei este templo, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens." Mc 14:58

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O compromisso que até o diabo conhece...


"E SUCEDEU que, ouvindo todos os reis dos amorreus, que habitavam deste lado do Jordão, ao ocidente, e todos os reis dos cananeus, que estavam ao pé do mar, que o SENHOR tinha secado as águas do Jordão, de diante dos filhos de Israel, até que passassem, desfaleceu-se-lhes o coração, e não houve mais ânimo neles, por causa dos filhos de Israel." Js 5:1

O compromisso de Deus com o seu povo é sabido por todo o mundo espiritual. Menos por nós, é claro.

Há crendices de mais e fé, genuína, conhecimento de Deus e das suas promessas, reveladas na Palavra, de menos.

Essa passagem mostra só um dos exemplos, quando o povo chegou à Terra Prometida e os inimigos desanimaram (tiveram derretido o ânimo, em outra versão) ao verem o favor de Deus por eles.

Nem entre os da "escola da fé", que propagandeia a convicção no que Deus nunca disse, há, genuinamente confiança no que já temos em Deus pela graça de Cristo, pois vivem amedrontados que lhes caiam os céus sobre a sua cabeça, conforme não frequentem os cultos, não ofertem o que lhes foi exigido e outras "obras mortas" e exigências de líderes mais falsos que notas de dois e cinquenta.

Esses dias foi-me perguntado se "o inferno desejava a morte de Cristo". Eu digo que não. Nem de longe.

Tudo o que sempre fizeram o diabo e todo o terço dos exércitos de anjos caidos foram amedrontar Jesus para que Ele caísse nesse que é o maior mal da igreja de hoje e de sempre - temesse o seu sacrifício e poupasse a si mesmo.

A coisa toda foi a tentação de Jesus dar a meia volta e preferir a sua própria salvação, a negação da sua unção de ser a "oferta de Deus", a oferta pelo pagamento do nosso erro. Tudo o que o inferno queria era que Cristo não se oferecesse, não sofresse, não se desse até a morte. O que eles não queriam, precisamente, era que Ele morresse. Jesus deixou bem claro a procedência dessa tentação quando Pedro, ao ouvir sobre a previsão de como tudo se consumaria no ministério do Senhor, tentou dissuadi-lo da ideia. Aquilo viera (e vem sempre) do próprio Satanás"(Mt 16:23).

Os demônios, fizeram tudo o que puderam, tentaram aterrorizá-lo quando Jesus passou pelo "vale da sombra da morte" - que não é ainda a morte - é mais aterradora do que ela própria (É sabido que na Europa, antes da instauração dos campos de concentração de dos guetos, morreram por suicídio judeus em maior número dos que deram cabo da própria vida após isso).

Se os nossos inimigos souberam, posto que estiveram lá nos começos, que Cristo haveria de vir e, não olhando para a sua própria comodidade dar-se-ia para que hoje, todos os seus, fossem libertos de uma vez por todas da morte e das garras do inferno - e os expusesse ao desprezo - então não é plausível que desejassem o seu sacrifício.

É uma loucura, mas crer, até o diabo crê, na verdade que "ninguém nos poderá separar do amor de Deus em Cristo Jesus". O problema somos nós mesmos.

Se até o diabo sabe disso e os nossos inimigos todos, só falta que nós creiamos...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Questionamentozinho sincero sobre a justiça de Deus


Tenho ultimamente uma séria dúvida: porque é que não entramos em crise, porque não perdemos noites de sono, porque não procuramos os pastores para reclamar quando Deus nos abençoa?

Sim, é isso mesmo, quando somos abençoados com essas bênçãos boas, agradáveis e lindas de se ver (e pegar!).

Eu francamente, nunca vi alguém fazer isso. Nem tenho, por regra, essa crise - quando sou apanhado por uma tremenda surpresa boa (leia-se agradável), recebendo um baita presente, sendo visitado por alguém especial, quando sou honrado, quando recebo alguma glória,... eu nunca procuro algum irmão, ou ao pastor da minha igreja para colocar a justiça de Deus em cheque porque, sendo eu mau, sendo eu um pecador dos grandes, cheio de coisas ruins, apesar de eu ter lutas no meu íntimo que sequer ouso por para fora, Deus traz do seu bom tesouro coisas que me agradam.

Imaginem, alguém vir até a frente da igreja e dizer: Irmãos, orem por mim, há algo errado com Deus, pois recebi uma tremenda bênção e eu não a mereço de jeito algum.

Onde estava Deus quando fui agraciado? Eu não mereço nada Dele... há alguma coisa que não está bem - podem orar por mim?

Estamos respirando, comendo, vivendo em meio aos nossos amados, não sendo ninguém mais do que os mais pobres e miseráveis do planeta, os excluídos, os perseguidos, os abandonados... mas Ele ainda continua a nos amar e a nos dar coisas boas...

As nossas ofertas são sempre pelo mínimo, as nossas obras são sempre maculadas por uma ou outra intenção e Ele continua como que a olhar pro outro lado...

Mesmo quando fazemos algo que as pessoas julgam fantásticas, somente porque Dele nos veio a inspiração e usamos o que na verdade, Ele já nos deu... não vamos para casa chateados porque puseram toda a glória em nós.

É... a coisa é sempre o contrário...

Vai entender a nossa pobre alma humana, não é mesmo?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A suprema linha da história

Nós sempre fomos acostumados a contar a história da salvação pelo lado do imprevisto, do acidente de percurso na história da humanidade, à partir de uma ótica bem nossa: Deus que é bom, criou o homem à sua imagem e semelhança, livre, sem pecado e, por obra desta criatura, desobedeceu ao Criador, comendo do que não devia - a árvore proibida - e dançou.

Em suma, de nós homens correndo e Deus, correndo - mais ainda - atrás do prejuízo que fabricamos.

Deus, sem saber o que fazer, pensamos nós, mesmo sem ser assim tão explícito - ficou agoniado, posto em cheque - e, furioso, expulsou o sujeito e a esposa do paraíso.

Essa é a nossa versão. Há ainda os que afirmam com toda a sua razão e convicção "teológica", que Deus, para resolver a situação, ou remediá-la, tentou de várias maneiras a coisa: Primeiro pelos patriarcas, pelos profetas, pela lei, etc... até que (ufa!) aparece Cristo na parada (no fim das tentativas e não como primeira e única opção) e põe de novo as coisas nos seus lugares.

Vai dai, que, não bastasse uma porção de cristãos viverem sobressaltados com os prováveis imprevistos da vida, achando-se à mercê de si mesmos e da sorte, com um Deus assentado no alto e sublime trono a assistir toda a tragédia, à espera e Ele próprio, à mercê desse homem e da sua performance, vêm os pensadores a questionarem toda a bagunça.

Dentre esses, Saramago, o Nobel, expoente maior da literatura portuguesa dos nossos dias a tocar dedo na ferida da cristandade.

Se Deus é bom, porque não pôs Ele guardas, miríades de anjos e arame farpado à volta da bendita - ou, no caso, maldita - árvore? Se é que o Altíssimo é onisciente, porque não impediu Ele o homem de tal crime para depois ter de o castigar?

Toda essa coisa, fica mais claro, notássemos nós os textos sagrados todos ao invés de retermos-nos em apenas alguns.

Pela mesma razão, acrescentaria eu ao escritor português - aprouve a Deus também "oferecer Cristo antes da fundação do mundo, antes que qualquer pecado fosse cometido". Ou seja,... havia - e há - um plano maior que nos escapa aos olhos, um plano "bom, perfeito e agradável" em marcha.

(1Pe 1:18-20) - "Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós."

(Ap 13:8) - "E adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo."

Deus estabeleceu todas as coisas, lá no princípio dos princípios, para fazer convergir em Cristo todas as coisas. Ele é quem mantém inclusive cada um de nós existindo, mesmo apesar da morte espiritual a que fomos sujeitos.

O que precisamos nos lembrar, à luz dessas escrituras, é que nada, nem ninguém, nem coisa alguma é capaz de surpreender a Deus, nem nunca o pegamos de surpresa com os nossos atos - dos quais somos responsáveis - andando, nos movendo e existindo em Cristo, intermediando de um lado a santidade de Deus e, de outro, a nossa miséria.

Em toda essa história, vemos o Cordeiro, que estava lá, sem o qual, "nada do que foi feito se fêz", sendo parte da construção, o modelo e o mantenedor, o promotor da unidade e o cabeça capaz de conduzí-la ao propósito de toda a raça humana, esse, justamente, traçado lá na eternidade, antes de todas as coisas.

“Este (Cristo) é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” Cl 1:15-17

O que aprendo com tudo isso?

  • Fomos criados por Deus e para Ele, tendo como modelo e alvo, Cristo;

  • Tenho de saber que nada do que me acontece, escapa das mãos de Deus, nem as coisas agradáveis, nem as outras.

  • Que nas horas mais difíceis da minha vida, Deus estava soberano, dando continuidade à uma história maravilhosa de amor, perfeita em todos os detalhes

  • Não há glória nenhuma em nós, mas em Deus que nos mantém e ajuda a viver o Seu plano;

  • E que vivemos pela graça e a graça aponta para Cristo e isso, deve gerar em nós gratidão e submissão.

Olhando por esse prisma, mesmo com a tragédia do Éden, a vida que Deus nos chama a viver torna tudo diferente.


PS: Pensei muito em compartilhar isso com dois amigos que temos em Ubatuba - a Alice e Tatá - quando orava por eles...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sobre a minha memória e a ação de graças!

Vivo assustado com a minha memória.

Não que me ache demasiado velho, mas reconheço uma certa falha seletiva no armazenamento de fatos que vivenciei.

O pior, é que não só os ruins passam-me do registro, mas os que nunca deveriam ser esquecidos, jamais.


Acho que isso está no DNA.

Falta de memória das coisas boas, as que Deus fez por nós, em nós e para nós e... ingratidão, coisas que andam juntas quase sempre.


Me lembro de certas fórmulas matemáticas que aprendi na infância, mas um livramento daqueles dignos de filme, me fogem sempre à lembrança.

Por isso é que o diabo, o nosso adversário, usa isso e sempre vem com aquela do "desta você não escapa", todas as vezes em que me vejo em dificuldades e provas.

Essa é a sua arma - uma das prediletas: fazer-me crer que essa prova, definitivamente é a maior delas. Como se Deus não me tivesse livrado de outras tantas, iguais ou até muito maiores.

E sofro inutilmente.


Por isso mesmo, por ter de vez em quando - por Deus, é certo - ter refrescada a memória, um hino, daqueles que são patrimônio histórico da igreja cristã, me abençoa imenso, aquele que diz: "Conta as bênçãos, conta quantas são, recebidas da divina mão..." e termina com uma determinada convicção: "...e verás surpreso o quanto Deus já fez!"

Nesse instante, sou animado. Encorajado por também uma verdade reavivada no meu íntimo: sou parte do único povo da terra, mais que vencedor, antes sequer de ter entrado nas batalhas.

Ganhadores, não por mérito ou por esforço, mas por decreto divino, por aquilo que a Bíblia chama "graça"!
Talvez por isso, Paulo insiste tanto sobre algo tremendo, sempre em todas as suas cartas, para que façamos, peçamos ou façamos conhecidas as nossas petições, embaladas por "ações de graça".

E para o quê? Para que Deus não fique magoado? Para que Ele não perca a fome, as horas de sono pensando: "Pôxa, magoei... esse povo não é me é agradecido"...?


Não. definitivamente não. A razão está no fato de podermos agradecer em tudo ("em TUDO dai graças") pelo mesmo motivo de que podemos ter certeza que Ele nos abençoará sempre, em qualquer circunstância...
porque na realidade Ele já o fêz.

Quando deu-nos Cristo (o cordeiro imolado antes da fundação do mundo), com Ele também já nos deu todas as coisas. E as vitoriazinhas cotidianas, miúdas (e que tanto nos apavaram), são só migalhas, sobras, daquilo que Ele, em Cristo já nos deu.

Essa é a lembrança que me abençoou nessa manhã fria e de nevoeiro aqui de Portugal.


"Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças" Fp 4:6

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Medo de homem, medo da vida II

Após escrever o último post, chegou-me às mãos esse e-mail de uma ouvinte que tem conhecido Deus conosco, através do rádio...

"Caros amigos, gostava de saber se possível, se vocês têm algum lugar onde podia me encontrar com outros cristãos que como eu, vivem sozinhos. Gostava de conhecer pessoas que conhecem a Deus e estão dispostas a trocarem amizade e se libertarem das solidão, como amigos. Tenho conhecido Deus com vocês, mas precisava também de estar com pessoas.” - M.M.


Apesar de contar com uma boa comunidade ao meu redor, gostava sinceramente de dizer à pessoa que eu também gostava de saber onde estão aqueles que desejam trocar a solidão pela amizade, de partilharem Deus.

Não é afinal para isso que somos igreja?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Medo de homem, medo da vida


Nesse mundo de fobias, uma me preocupa: a Homem-fobia.

Esse é o medo de envolvermo-nos com os outros. Mantermos distância de tudo o que não me diz respeito. E isso contamina.

Pergunta-se nos passos cruzados pelas ruas: "Como vai, bem?" Correndo o máximo, para não ouvir a resposta.

O mais importante para a imagem de civilizado é a pergunta, não a resposta. Vai que dizem: "Não, está tudo mal....".

Santidade, para nós crentes, significa toda espécie de exercícios - pretensamente - espirituais, que no frigir dos ovos, têm tudo a ver com o afastarmos-nos do semelhante.

Santidade já não é o tanto que luto contra mim mesmo para que os outros sejam salvos, mas o quanto luto com todas as minhas forças contra os outros para garantir a minha própria salvação.

Salvação, já é o livrar-me dos outros. Não de nós mesmos e dessa prisão do ego.

A Europa vive isso com intensidade, mais do que em outra parte.

"O que não é meu, não me diz respeito" é a máxima, uma afirmação que pode parecer lógica e que vem na direção da honestidade e probidade com o que é propriedade alheia, mas esconde na verdade uma determinação firme para se guardar os limites de cada um e preservar a nossa individualidade. Assim, uma pessoa caída na calçada, é coisa para os razoáveis serviços sociais e de emergência médica e não do meu braço - que tinha de ser - solidário.

O caso do sujeito assaltado e desfalecido à estrada do samaritano, já é caso para o governo e para os serviços oficiais, não meu. Vê-se, vira-se para o outro lado e já está. No máximo, no ultrapassar da média da cidadania, liga-se para o telefone da emergência.

Nas comunidades cristãs, cada dia menos digna desse nome "comunidade" (e, se calhar, também do "cristã"), busca-se o que é nosso e o resto, que Deus mesmo, Se encarregue de cuidar.

Pagam-se as obrigações (dízimos, ofertas, etc...) e os problemas, foram pagos e confiados a quem de direito.

Os décimos do meu rendimento foram pagos? Então os outros noventímos são meus. Nem Deus lhes toca.

A minha casa? É a minha fortaleza. Entra quem quer, quando, afinal, eu decidir.

Cantamos na congregação: "Somos uma família..." e, no Natal (ai, já bem próximo), encontramos pessoas sem mesa, irmãos sem casa e sem gente com quem comemorar a data maior dos cristãos e ainda nos desculpamos: "Sabe como é, essa comemoração, é a comemoração só da família", para justificar a nossa casa fechada. É sério! Isso faz-me rir (para controlar-me e não cair no choro!). E essa palhaçada litúrgica continua e ainda admiramos-nos quando, pouco a pouco, o povo começa a esfriar e a entender tudo isso como uma imensa enganação (já vivi muito isso, minha gente, nem conto!).

Quando Jesus veio, veio para quebrar as cadeias. Todas elas, inclusive as trancas dos nossos corações. Ou então, não deixei quebrar nada, nem uma, nem outra coisa. Por isso, pedimos: "Perdoa, Senhor, como eu tenho perdoado". Só podemos fazer isso, sabendo que já recebemos o perdão e este, contaminou-nos. Não há outro jeito.

A Palavra de Deus afirma que Ele já quebrou o muro da inimizade. Mas nós insisitimos em levantá-lo.

Ah!... O quanto lamento pelo meu pre-conceito que me afastou de quem nem cheguei a considerar... O quanto podia ter sido abençoado abençoando, ligando-me a alguém com outra parte do imenso puzzle humano posto por Deus em cada um, que só faz sentido quando juntado...
Aprendido, interagido, relacionado, compartilhado... Isso é o que Deus deve chamar de vida. Quanto mais nos guardamos dos outros, menos vivemos, menos provamos do seu significado, menor é a nossa experimentação daquilo que Deus preparou para nós.

Enfrentamos problemas e nos escondemos. E ainda dizemos: "Não quero ver ninguém, quero esperar por Deus!" E Ele está ali, justamente na palavra, no abraço, na exortação, ou seja lá o que for, pela boca, pelas mãos, pela presença de um igual. E nem os consideramos e o que podem ter de Deus, porque não os enxergamos segundo a carne, o natural, e não por aquilo que Deus pode fazer neles e através deles.

Quanta estupidez a nossa...

Tenho aprendido e sido lembrado de uma verdade: Quanto mais somos de Deus, tanto mais somos dos outros. Ou... não sendo dos outros, também não somos Dele. É matemático. Pode ver.

"E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação;..." 2 Co 5:15-18

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Sobre os sacrifícios


"Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça." Rm 4:3

Muita gente imagina que Abraão creu tanto, tinha tanta confiança em Deus, que sabia que, no final da história, não precisaria entregar o filho que amava em sacrifício.

Não é isso o que podemos ver na narrativa de Gênesis. O cara engoliu seco, imagino eu, que matou o filho vezes sem conta nos três dias em que se dirigiu a Moriá. A cada passo, o filme devia correr pela sua mente... e o sangue a gelar nas veias.

Deu tempo para se assustar, apavorar, ser tentado a dar meia volta, discutir, argumentar com Deus, ...fazer cambalachos do tipo que fazemos quando Deus nos pede algo que nos é precioso: deixa por menos, Senhor! Eu faço outra coisa, duas, mil coisas...

Mas abraão foi. Até ao fim. De um "Eis-me aqui Senhor!", quando recebeu a ordem, a um "Eis-me aqui, Senhor!" quando tinha o filho já imobilizado (não uma criança, mas um adolescente feito) sobre o altar.

Como fazemos as vezes todas em que a direção de Deus não caminha no sentido das nossas conveniências, tenho sempre a tendência de me lembrar de Abraão depois da tragédia toda, quando Deus troca o filho querido por um animal para o holocausto.

Mas a história não foi assim...

Acho que o segredo todo, não está no fato de Deus nos livrar na hora "h", mas no conhecimento que se pode ter do Seu amor que, de um jeito ou de outro, há de nos amparar no cumprimento da Sua vontade.

Tenho repetido isso à minha alma nesses últimos dias todos!

sábado, 24 de outubro de 2009

Coragem para ser maluco

"Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens." 1 Co 1:25

É preciso coragem para enlouquecer.

Ser doido mesmo, de carteirinha, não é coisa para qualquer um.


Num desses dias em que pensamos mais que de costume no salmo de Asafe, o 73, em que ele afirma quase ver os seus pés resvalados por ver a prosperidade dos ímpios, dos que andam à margem dos princípios de Deus, da prosperidade dos maus, do seu enriquecimento servindo-se do Evangelho (ou indo contra ele), da sua vida regalada, sem apertos, quase desistimos...

Dá-nos uma tremedeira e um frio na barriga pensar que diante de nós, só resta o andar completamente sem sentido nenhum, sem lógica ou razão.


Servir mais do que já fez? Isso é loucura. Dar-se a esse povo que nem nota o benefício e está a servir-se de você? Isso é idiotice. Perdoar novamente? Ela (ou ele) não merece, não seja idiota. O quê? Oferecer os melhores anos da sua vida para coisas que não são certas ou que não sabemos se vão trazer resultados? Caia fora. Quem há de pensar em você? Quem há de cuidar de si? E o futuro? Meu Deus,..o futuro!!! E as garantias?... E quando lhe faltarem as forças? Você está ficando velho... a saúde já não é de um garotinho... É insano.

Continuar a passar apertado, numa terra distante para nada seguro ou que lhe traga a certeza que o seu sacrifício resultará? Nem morto! Você é um idiota.


Não dá nem para compartilhar com muita gente que ninguém iria entender.

Os parentes não entendem, os amigos não chegam lá, a esposa nem acompanha. Não faz nexo.

Imagine Abraão compartilhando com os vizinhos que iria ao monte Moriá sacrificar o filho que esperou por tanto tempo. Deus mandou o que, seu maluco! Está louco! Amarrem o cara!

Ou Daniel contar aos amigos que não iria nem a pau obedecer ao rei, que estava pronto a ir pra cova dos leões... Tá amarrado! Invente algo, faça uma concessão, não precisa ser tão ferro e fogo, abra mão dos princípios, flexibilize-se, mas livre-se dessa, cara!

Jesus, por muito menos, só de dizer aos 12 que iria beber um cálice difícil de engolir, foi repreendido.
Pense em si, Jesus! Poupa-te! Nunca, disse Pedro!

Imaginem só quantas ideias malucas passaram na cabeça de Deus quando tirou a vida de alguém que julgávamos imprescindível para a Sua obra, contrariando a nossa "compaixão" e senso de inteligência, ou não livrou a cara de alguém que julgávamos importante, de um leito de morte, ou quando destruiu alguma obra que julgávamos fantástica, ou guiou a vida de muitos dos nossos heróis por caminhos completamente improváveis, só para no final, fazer algo que só estava na Sua divina cabeça...
tenhamos ou não visto algo que justificasse.

Se desejamos mesmo viver o que Deus nos propõe, o que chamamos de "ministério cristão", esperemos por algo que não tem lógica alguma.


Se amamos e queremos viver a cruz de Cristo, então temos de nos preparar para algo que não faz o menor sentido.


Nesses dias em que temos montes de desafios só temos pela frente o engolir seco do improvável e das dúvidas (compartilhamos isso ontem, eu e o Danilo, maluco do Genizah), não há para nós, outro caminho ou atalho. Para quem tem tentado só viver o plano de Deus, as coisas não têm nexo.

Mas, afinal, entre coisa e outra, há algo forte que me obriga a prosseguir: a mão do Senhor. Ele e não eu. Ele e não as seduções do "outro caminho, o largo, o fácil, o "das multidões". O outro, não é o da cruz, é sim, o da poltrona, dos holofotes, dos aplausos,...

Como disse Asafe, nesse salmo:
"Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti." (v.25). Queremos Ele? Então estejamos preparados.

Mas isso, na lógica humana, não faz mesmo, absolutamente sentido algum...

Se quisermos mesmo seguir Jesus, preparemos-nos, com muita coragem, para algo completamente maluco.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O supremo lugar

"Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo." Jo 17:24

Essa é uma oração no mínimo estranha. Deus, o Onipresente Senhor, pedindo ao Pai para que nós estivéssemos com Ele. Ora, se estaria Ele após subir aos céus em toda a parte, para que um pedido desses? Quem pode se distanciar Dele?

O que aprendemos é que perto e próximo são dois conceitos totalmente diferentes. Pode-se estar muito perto e não ser-se mais próximo. Como aliás, duas pessoas que dividem a mesma cama e já não têm nada um com o outro, com os corações a quilômetros de distancia.

Nada, aliás, perturba mais do que estar muito próximo de alguém e não sermos mais próximos. Não haver intimidade. Não haver mais cumplicidade. Não haver mais conhecimento do coração um do outro. Segundo aprendi do meu amigo e pastor Paulo Jr., a maior distância jamais representada, estava no véu do tempo, no santíssimo lugar. Um fino pedaço de pano, pelo qual se podia avistar forma e movimento, mas ficava patente naturezas distintas, identidades distintas, realidades distintas.

Acordei agora, cinco e pouco da manhã e com aquela sensação chata de não ter a esposa ao lado, (ainda em viagem) a meditar e a pedir isso mesmo a Deus: para além de estar perto Dele, quero também estar próximo, sem esconder-Lhe nada, sem ocultar-Lhe coisa alguma e ouvir o Seu coração. Como aliás, Elias ouviu após a barulhada (no vento forte, no tremor de terra, no incêndio...) - um simples e tênue murmúrio, talvez o respirar de Deus.

Essa hoje é a minha oração da madrugada.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A difícil oferta do novilho cevado


"Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á..." Mc 8:36

Quem nos conhece sabe do desgaste de mais de uma década no campo missionário. Tanto que já até nos designaram para irmos para o Brasil por seis meses para um tempo de refrigério (e algum trabalho, afinal, sou missionário brasileiro, rsrsrsrs...).
Não pude deixar de me lembrar esses dias, do novilho do filho mais velho do tal irmão rebelde, da conhecida parábola do Filho Pródigo (que para sermos mais rigorosos, devia-se chamar "A parábola do Pai Pródigo").


Nesse drama de caminhos feitos destruição, arrependimento e perdão, há algo interessante: Após a volta do fujão, o pai ofereceu-lhe uma festança com direito a assar (quem sabe no espeto!) um novilho cevado. Não um qualquer, mas o alimentado à mão, o especial, quem sabe guardado pra uma ocasião especialíssima.

O nó da questão, é que o pai ofereceu justamente algo que não possuía mais, uma vez que, como afirma Lucas 15:11 e 12, logo no início da narrativa contada por Jesus, "tendo o pai dividido tudo o que possuía entre ambos", aquele novilho não lhe pertencia.

Para além de viver de favor, o agora pobre pai, mandara sapecar um churrascão com o novilho de alguém que, por certo, já havia gasto as suas últimas esperanças e boa vontade com o irmão safado e ingrato.


Não nos importamos em socorrer quem quer que seja mas volta e meia nos surpreendemos ao ver que, mesmo sem condições, ainda temos que repartir para abençoar alguém, mesmo estando nós abatidos e nos sentindo miseráveis.
 

Quando justamente achamos ter queimado os últimos cartuchos, Deus sempre nos mostra que ainda não demos tudo - ou por desatenção, ou, no caso da narrativa bíblica, por egoísmo.

O que Deus nos dá para repartir, nunca se acaba. A nossa disposição sim. A nossa abertura para os outros sim.


Ainda bem que, do contrário do irmão ressentido que perdeu a rês numa festa que não queria oferecer, para alguém que achava que não merecia nem mais um fio de cabelo da família, quando compartilhamos de Deus, podemos dormir e sentirmos aquela paz gostosa que experimenta todo aquele que se presta a repartir o que tem e o que julga que não.
Que Deus surpreenda você também... E que não se esqueça da lição:
Tudo o que guardarmos para nós vai ser exatamente a porção que vai-se perder!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ainda sobre os abalos (e uma de avô babado)!

Ainda sobre os "abalos" de Deus, as nossas convicções e sobre o maravilhoso papel de avô (todas as vezes em que me meto a contar "causos" de neto, a minha mulher me lembra disso!).

É sobre o meu neto Davi.

Já lá vão três anos desde quando, no seu nascimento, um acidente no parto fez com que ele ficasse mais de 9 minutos com os pulmões cheios de líquido amniótico, sem respirar.

Choveram previsões e advertências terríveis: ele fatalmente teria problemas motores, no seu desenvolvimento intelectual, etc... tudo aquilo que fez com que essa experiência maravilhosa que é ser avô, fosse ameaçada de temor e tristeza.

Ainda me lembro do silêncio terrível que tomou conta do meu coração quando recebi a notícia. E vezes sem conta, assombrei-me com as possíveis e quase certas consequências de um acidente indesejável. Tudo o que podia nos tirar de órbita, de nos tirar o foco do que fazíamos aqui no campo missionário, as horas preciosas do nosso sono e de paz.

Meses se foram, três anos se passaram e, até hoje, nada aconteceu para que a infância desse garotão - lindo com o avô materno - fosse maculada por algum sinal que nos remetesse ao dito acidente na maternidade.

Ontem, chega ele, radiante da escola e diz à mãe:

- "Sabe o que a abelhinha dá? - Mel!"

- "Sabe o que a vaquinha dá? - Leite"

- "Sabe o que a galinha dá? Ovos"

e emendou para o espanto geral:

- "Sabe o que o leão dá? - Chá!"

- "Chá?" Gritou a mãe? Você aprendeu isso na escolinha? Foi?

E ele, cheio de convicção científica: - "Na sua cozinha", apontando para uma embalagem de chá, o conhecido Mate Leão.

Com apenas 3 anos, sem ainda saber ler ou escrever, esse garotinho lembrou o avô, a dezenas de quilômetros de distância, o que este vem aprendendo a cada terremoto: "a única coisa inabalável na nossa vida é o Reino de Deus." Com acidentes ou sem acidentes, com sequelas ou sem sequelas, a nossa vida sempre esteve nas mãos de Deus e circunstância alguma nos pode mover delas.

Tudo o mais, são fragilidades...

(e cá entre nós, é inteligente esse baixinho, heim? Vocês não acham? Heim? Heim?...)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Do jeito que Deus gosta!


"Aquele, cuja voz abalou, então, a terra; agora, porém, ele promete, dizendo: Ainda uma vez por todas, farei abalar não só a terra, mas também o céu." Hb 12:26

A sensação de estar onde o chão deixa de ser uma base de segurança é algo de fantástico.

Aquela máxima que diz: "Do chão não se passa", deixa de ser verdade". Todas as referências ficam igualmente abaladas. Ninguém fica impassível.

É comum na minha experiência como pastor, conselheiro,... receber pessoas desesperadas porque constataram que Deus tirou-lhes o chão, abalaram as suas vidas. São crises, descobertas aterradoras sobre si ou sobre um familiar, um cônjuge,... notícias ruins... fracassos, impossibilidades várias...

E os "abalos", terremotos existenciais são-nos muito úteis, segundo descobri.

Com o abalar das nossas estruturas - descobrimos quais delas são de fato fortes o suficientes para nos suster e, uma vez isso, pode-se continuar a emprender-se sobre elas, justamente porque foram postas à prova e, uma vez, postas debaixo das nossas edificações, como base do que construiremos, isso não ruirá algum dia. E causar dano ainda maior.

É precisamente disso que nos diz esse texto de Hebreus. Deus, e ninguém mais, fêz isso, e parece que tem todo o interesse em abalar as nossas fundações. Não o inimigo, não as circunstâncias fora do controle divino. E por graça. Para o bem. Não é gostoso viver-se debaixo de abalos, mas é algo bom e saudável.

Ainda me lembro quando cheguei à Europa, cheio de confiança naquilo tudo que era capaz de fazer, de empreender, num campo cheio de necessidades naquela época.
Por graça, tenho certeza, Deus fêz-me (e ainda tem feito) abalar as minhas convicções e bases todas. Logo nos primeiros meses, cheio de confiança naquilo tudo que sabia fazer, tive as minhas duas mãos quebradas em dois surpreendentes acidentes, no espaço de dois meses apenas entre um e outro. Naquela altura, confuso e com o desconforto todo de gessos e imobilização que me tirou a condição de trabalhar, pude refletir muito sobre uma verdade que veio a se confirmar no meu ministério cristão por cá: "Aquilo que Deus iria fazer, era mais pelo que eu sou, do que pelo que podia fazer". Nessa terra de lutas, não podia eu vir com romantismos ou abusar do direito de ser inocente.

Não é sem razão que as minhas maiores lutas aconteceram aqui...

Lisboa é toda plantada sobre bases móveis, capazes de tremer com a terra em caso de sismo sem que entrem em colapso (essa cidade já foi destruída em 1/3 da sua área urbana, há tempos, situando-se numa conhecida área de tremores).

Como ela, o grande problema da nossa vida, é cercarmos-nos de recursos, estratagemas contra os tremores santos.
E fazemos isso, quando cercamos-nos de desculpas, de acusações contra outros sobre aquilo que devia ser a nossa admissão de culpa nos nossos próprios erros. Quando cercamos-nos de uma capa protetora que sempre atira pros outros as falhas e o que se pode ver - nos outros - de fragilidades. De justificarmos-nos nas nossas necessidades, na nossa comodidade... Nos fins que justificam todo e qualquer meio, fazendo concessões ao que não há consistência ou legitimidade de acordo com a Palavra de Deus em nós.

Portando-nos assim, mantemos estruturas débeis e sem solidez, que um dia, mais tarde, irão causar danos muito piores, quando, dependendo delas, descobrirmos atônitos, que edificamos sobre a areia e não sobre a Rocha.

Antes que o edifício construído sobre esses pilares frágeis desabe, Deus mesmo se encarrega de soprar sobre eles, o seu vento impetuoso e derruba-os todos ao chão.

Não nos enganemos: Os abalos na nossa caminhada vêm de Deus, são bênção dos céus, para que nos certifiquemos, que afinal, estamos edificados, unicamente naquilo que não pode ser abalado: o Reino de Deus.

Quando estiver a passar por abalos, lembre-se disso. E saiba: você está onde devia estar.
E estará do jeito que Deus (e não o diabo) gosta.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Orar, verbo passivo


"Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto..." Mt 6:6

Reza é falatório para não ouvir. Como afirma Ruben Alves.

E como evangélico reza... achando que pratica coisa diferente. O nosso negócio é orar. E orar não é rezar, afirmamos nós.

Mas, de um modo ou de outro, o que temos visto é ladainha, reza e não oração.

Eu sempre fui encucado com essa coisa de orar, como se esse fosse o modo pelo qual o "Onisciente" fica sabendo de coisas que ainda não sabe.

Nós, cristãos, entendemos que se não orarmos, Deus não nos atende.

Orar é fazer Deus nos atender. Ou saber de coisas que não sabe.

Vai dai que usamos as orações para convertermos Deus. Fazê-Lo ser mais "bom", ou convertê-Lo às nossas causas.

E jejuamos, e imploramos, aprendemos técnicas para "dobrarmos" a vontade divina...

Ensinam-nos que devemos antes de orar, ofertar, sacrificar - via de regra - o bolso, a carteira e só ai, dizem eles Deus responderá. Faça isso e mais aquilo, chore, gema, implore, seja perseverante, incomode, perturbe,... para que Deus o ouça.

Se é verdade que Deus nos suprirá de comida, como a que dá aos passarinhos, ou vestimenta, em maior esplendor do que os lírios do campo (valemos mais que esses, disse Jesus!), enfim, dessas coisas e demandas da vida que nos seríamos acrescentadas na nossa caminhada, então não faz sentido algum, entendermos a oração como um meio de falar muito.

Mas as nossas orações ainda falam só de pão e vestimenta.

Somos maus e não temos coragem de dar pedra por pão, ou cobras por peixe aos nossos filhos, mas as nossas orações ainda são peditórios miseráveis de quem, desconhecendo o bom Pai que sabe dar do seu bom tesouro coisas boas aos seus filhos, não vive uma vida de fé e sim de ansiedade e obsessão.

Oração, entendo eu hoje, é um excelente meio para ouvirmos Deus. E estar com Ele. E para juntarmos-nos ao que Ele faz e tem feito - na nossa vida e na dos outros.

Orando, tornamos-nos parte do Seu mover. Afinando passo a passo a nossa vida com a Dele, como fazia Jesus durante toda a sua caminhada em carne.

Quanto mais me entrego à oração, mais sou, de fato, Dele. E Ele, meu. E isso nos transforma. Por isso mesmo creio que a oração mais poderosa que há é aquela que não muda, nem Deus, muito menos as circunstâncias, mas a nós mesmos.

Orar, não é uma prática de muito falar, mas de deixar-se aquietar.

Não há nada que se compara a ouvirmos Deus no silêncio do quarto, no secreto da vida. Mesmo que do lado de lá, nada vem, som nenhum e enfrentamos os nossos próprios barulhos que tanto abafam a Sua voz, como aqueles relógios de cabeceira que se tornam vivos, à medida que tudo se faz silêncio nas nossas noites.

Estar com Ele é ainda, a melhor coisa que pode ser orada a Deus.
Junto Dele, até as palavras são demasiadas...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Série de morte II - SERÁ O CÉU UM TÉDIO?


Temos uma incompatibilidade natural com a morte!

É quase genético. Não fomos criados para morrer.

Ela só entrou na nossa vida para cumprir um propósito redentor, maior, mas que a olho nú, veio nos livrar de vivermos eternamente sob a prisão do erro. Por isso, Deus pôs um anjo a guardar o caminho que levava o homem, amaldiçoado, à árvore da vida, que lhe daria uma existência sem fim debaixo do jugo dessa carne inclinada ao erro, ao que não presta.

Hoje em dia, graças à essas teologiazinhas de botequim (de tasca, em Portugal!), do hedonismo travestido de religião cujo deus somos nós mesmos e os nossos desejos, os crentes já não falam mais do céu, da morte como passagem e promoção e até, pasmem, não faltam entre nós que têm verdadeiro pavor de morrer. Podem ver. Fogem da conversa, da ideia e de sequer mencionarem essa palavra abominável, esquecendo-se que bebemos dos seus efeitos desde o dia do nosso nascimento. Meu...(eles devem pensar!), lá do outro lado não tem sexo (vide último post!), MTV, playstation, cerveja, nem piada...

Do céu, assunto cortado das nossas igrejas, já não queremos saber. Afinal, o lugar é pintado e imaginado como o lugar mais chato e enjoativo possível: anjinhos entediados a pular de nuvem em nuvem, tocando harpa (sem eletrificação!), sem sexo, sem comida, sem trabalho, sem prazer algum… Pois é sabido que no céu não há sexo, portanto, nem paqueras, bares, nem motéis, nadinha…

Uma espécie de hospital, mas daqueles onde só temos gente sem dor, sem choro, mas também sem alegria nenhuma e a comida, pior que na Inglaterra - sem sabor algum.

No céu, seremos todos umas alfaces – sem tristeza, mas também sem qualquer alegria.

Não é isso o que vemos nas escrituras.


No céu, podem pesquisar na Bíblia, as pessoas:

1. Não estão a dormir! Estão descansando das aflições, mas trabalhando.

2. Não estão a deslizar entre as nuvens, mas servindo a Deus! (Ap 7:9-17)

3. Não estão no maior ócio, sem nada a fazer (v. 15)

4. Têm consciência de quem são, afinal, se saberemos tudo como realmente são as coisas, não faz o menor sentido imaginarmos que seremos mais idiotas do que já somos aqui! (1 Co 13:9-12)


Não precisamos temer a morte pois ela…

1. É a libertação final de uma salvação que já foi decretada na cruz

2. Não significa cessação, mas separação e ainda assim, temporária

3. É o tratamento de Deus para todas as enfermidades (afinal, creio hoje que Deus cura sempre: levantando o enfermo, ou levando-o para Si).

4. É o descanso do pecado, da tristeza, das aflições, tentações e perseguições…

5. É a conquista da liberdade de todos os opositores, externos e internos;

6. É a partida da imperfeição para a perfeição!

7. É o meio pelo qual vamos estar finalmente na nossa casa, com todos os que foram um dia antes de nós e na presença de Deus, sem impedimentos.


Mas há mais algumas coisas sobre a morte que precisamos saber:

1. Se alguém morreu, não morreu porque o inimigo o levou, pois quem tem o poder e a chave da vida e da morte é Deus e mais ninguém (at 17:25).

2. Quem morre novo, não morre porque Deus perdeu alguma batalha ou foi-se por conta dos seus erros. Foi por vontade exclusiva do Senhor (Ec 7:15). Se fosse assim, sobrava meia-dúzia de políticos vivos no nosso congresso!

3. Quem morre, não fica a dormir no cemitério até a ressurreição. Morreu, está-se lá (Lc 23:43)

4. Não se pode voltar da morte, nem em espírito, nem em carne... Não se pode comunicar com os que já foram – ou até lhes pedirmos uma ajudazinha. A morte é definitiva. (Lc 16:19-31; Hb 9:27)


Por tudo isso – e mais uma pouco – não temo a morte e anelo o céu - o melhor ainda não é isso que tanto prezamos.


“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para cada um de vós – aqueles que o amam.” 1 Co 2:9