terça-feira, 19 de agosto de 2008

Sobre a porta e as portas!

Eu sou a porta; se alguém entrar por mim,
salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens. Jo.10:9

Essa passagem é mesmo importante.

Fala de entrarmos por Jesus. E sairmos. De entrar Nele? Não. O texto fala de outra simbologia. De entrar POR ele. E para onde, para que lugar?

Parece-me que Jesus está a propor-nos uma experiência de transformação. E da possibilidade de sermos transformados. De velhos para os novos homens, criados Nele para as boas obras. Da velha cultura, a do berço, das ruas, que nos passaram os nossos pais biológicos, a das escolas com o pensamento politicamente correta da época (e vale lembrar que num tempo, no nosso ocidente, podia-se matar a esposa por não nos fazer o jantar, noutro tempo, já era crime, como aliás, pensava-se que a terra era quadrada…) para uma cultura, a do alto, dos céus… de Deus.

A salvação, das nossas dívidas para com Deus e a possibilidade de entrarmos por Ele para que encontremos pastagens – aí, não só uma perspectiva de ganhos pessoais, mas uma garantia de sustento, de manutenção divina para uma vida dedicada a Deus e à prática das boas obras. Onde a proposta que nos dá Ele para que vivamos, é antes de tudo, garantido pela sua companhia e ajuda essenciais.

O que lemos aqui é precisamente o contrário da prática que vemos hoje nas nossas comunidades cristãs.

O que temos visto no exemplo da prática comunitária dos eleitos, dos “novos-homens” feitos em Cristo e ovelhas do seu aprisco, é algo que vai muito além do compromisso que deve haver em toda comunidade fraternal, onde as alianças são firmadas não só entre Deus e o homem-ovelha, mas deste para com os seus conservos, os seus iguais.

Há uma tentação sempre presente no nosso ministério pastoral quando não enxergamos alguns valores que aprendemos em Cristo e na sua relação com o rebanho.

Cristo, ensina-nos que na sua comunidade de irmãos, o maior é aquele que mais serve e este, como supremo ato do seu “ministério” (serviço) em favor dos seus iguais – e não subalternos – entrega-se, ao ponto de dar a própria vida em favor das ovelhas, que afinal, são-lhe iguais em importância e em essência.

O que vemos hoje, é que somos desafiados a entrarmos por pretensas portas – portas que não são “Cristos”, mas as de uma agremiação, ou comunidade pretensamente cristã, e lá permanecemos, repito, não por conta de uma aliança voluntária e fraterna, mas por conta de pressões pelo controle e domínio à conta de versos bíblicos fora de contexto a cobrar-nos subserviência e servidão que vai muito para além do que a Palavra nos chama a viver (como por exemplo o de 1º Samuel 15:23: “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria”, ou então o de Mateus 19:29 “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe - ou mulher - ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna”, em que ‘por causa do meu nome’ significa muitas vezes o servir a tal fulano, que se passa por Procurador de Deus na terra).

Seremos líderes déspotas, líderes narcisistas se tentarmos construir um império baseado nos nossos interesses e não no… emancipar os nossos iguais, as ovelhas, não exercendo o ministério a que Deus os chamou a cumprir e deu Ele próprio, o exemplo.

São exigências de fidelidade não à Palavra, não ao Reino de Deus, mas à uma fidelidade cega que vai para além do serviço cristão a que somos todos chamados por Deus.

Ao invés de emancipados e ajudados até que cumpramos todos os nossos próprios ministérios – que afinal converge sempre para o bem de todos, ao serviço de todos, à exemplo do que Cristo fez cabalmente até a cruz.

O propósito do líder segundo Cristo, tenho aprendido a cada dia ao refletir sobre o que siginifica o pastorado, não é outro para além o de servir e de proporcionar o “sair” das ovelhas para o seu papel neste mundo. O de morrer, para que outros vivam (conforme Paulo dizia ser o papel dos apóstolos). O culminar do ministério do líder verdadeiro, não é outro a não ser o de viabilizar o ministério de outros, os nossos conservos.

Esse papel não é o de fazermos cumprir o nosso sonho, o nosso projeto como líderes. Não é executarmos a nossa visão, mas a de cooperar para que os crentes cumpram cada um, o seu papel, como membro de um corpo cujo cabeça é Cristo.

Entrar e sair. Entrar para uma nova realidade – a da cura, a da capacitação e a da educação de uma nova mente e cultura – para sair para o serviço a um mundo necessitado e carenciado da glória de Deus.

Entrar e sair. Da libertação da cruz, para a liberdade da vida em Cristo.

Qualquer outra proposta que não faça sair o crente à liberdade, é espúria, é prisão.

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