segunda-feira, 21 de abril de 2008

A realidade dos vasilhames e das cascas...

"...Não é o corpo mais do que as vestes?" Mt 6.25


Meu Deus do céu!... Como vivemos enganados!
Pensava eu, dia desses, como essa "casca" ou "embalagem" que vestimos e que vai-se transformando ao longo da nossa vida ocupa a nossa cabeça,... Até que, relutantes, somos obrigados a devolvê-la, despencando-se toda, ao fabricante.
E é assim a crise: Nos primeiros anos por não parecermos com o que desejávamos parecer, a tentar espichar um cabelo alí, esconder um nariz pontudo ali... Passamos preciosos anos da nossa adolescência tentando nos aceitar pelo que o nosso espelho, bem ou mal intencionado nos revelava.
Depois de algum tempo, já mais crescidos e com os hormônios à todo vapor, a nossa preocupação era fantasiar o "vasilhame"com tecidos, padrões, cores e texturas... e não só para o nosso conforto, mas movidos pela necessidade social de darmos ares do que éramos, ou do que não, ou ainda por aquilo que desejavámos parecer que éramos com aquilo que as roupas, calças, camisas e até sapatos carregavam para se valorizar - as etiquetas! Era o apelo das marcas e logomarcas, alvos do desejo de consumo, a avalisar uma carteira que, na maioria das vezes não possuíamos. E tudo isso, para agradarmos - via de regra - os outros!
Que vida engraçada essa a nossa, escravizada mais por aquilo que queríamos mostrar, do que administrar aquilo que éramos embaixo dessa casca toda: carne, pele, roupa e adereços.
Anos mais tarde, vem-nos a fase dos disfarces e dos mil produtos que prometiam postergar o óbvio efeito perverso do tempo, da idade,... quando as rugas (que deveriam ser assim como um extrato, tipo bancário, a avalisar a maturidade trazida pelos anos) teimavam em rebelar-se contra os nossos esforços vão de reparar ou pateticamente disfarçar. E dá-lhe cremes, pomadas e maquiagens...
Pois é,... dia desses, admirando eu aquela capela famosa da cidade de Évora, Portugal, construída de ossos humanos, com a oferta derradeira de mais de 5 mil cadáveres (e tem gente que ainda crê que, uma vêz mortos, não se tem mais o que oferecer à vida!), refletia sobre esse imperativo social de medirmo-nos por fora, pelo avesso, pelo que se pode ver, medir ou comparar ao invés de focarmos mais "casca-adentro", vendo o que não se vê facilmente - o coração, a essência, ou o produto, afinal, escondido, contido dentro das embalagens.
E a nossa experiência existencial se resume aquilo que os olhos enxergam de pronto, sem esforço: aquilo do "esse é pobre, porque veste-se de maneira simples", "aquele outro é rico, porque veste-se como tal", "aquela é desejável pela "embalagem" que veste (ou que conseguiu às custas de litros de silicone e muita massa na mão de algum gênio da cirurgia plástica)", "aquele outro é desprezível, pelos defeitos que traz no vasilhame e nada tem a nos acrescentar"...
Nascemos, crescemos e morremos, tentando nos esquecer do óbvio: não passamos todos de uns esqueletos. Alguns mal, outros bem vestidos.

(Escrito depois de decidir comprar outra marca de creme de rosto para a minha esposa. Odeio o sabor da linha Lancôme!...)

PS: E, aos amigos de Portugal, queiram desculpar pelo português "brasileiro"...

8 comentários:

Jorge Oliveira disse...

Bom posta!
:)
(Tás desculpado)

PDivulg disse...

Ja estive nessa capela e achei aquele lugar bem macabro...

cxp disse...

tudo esqueleto, ossos, eheheheh... é verdade a carne só completa os espaços vazios ;). E depois as roupas tapam a dita carne! Ui... como se isso pudesse esconder a "gordura" e o que nos vai cá dentro [ que é sem dúvida o mais importante !! ].
Gostei muito, mm muito Sr. Rubi.
Abraço.

Raquel disse...

Nossa pai- que delicia esse blog!
por favor nao pare nao :-)

um beijo com saudade e te aaaaamoooo!

_SunFlower_ disse...

na impossibilidade de aceitar o almoço juntamente com o Pedro, fica um abraço e um beijinho!

Apesar de ser apenas invólucro tem que ser bem tratadinho... que o meu já se anda a ressentir. =)

Samuel B. disse...

Olá, irmão Rubinho! Tenho andado a ouvir a vossa (equipa toda) rádio. E os cartoons do blog estão fixes! :)

Deus o abençôe
Samuel Batista

Sarah Catarino disse...

Oi, amigão,
Estás perdoado pelos erros, mas daqui a nada,por causa do dto acordo ortográfico, até brasileiro escreve bem...
Vê se "blogas" mais frequentemente porque tens tanto para dizer...
Sarah

Anônimo disse...

Olá Rubinho,
Descobri o seu blogue e digo o mesmo que a Sarah, escreva mais porque gostei muito dos seus textos.
Um beijinho e que Deus o abençoe
Lara