quinta-feira, 20 de março de 2008

Pastores ou Vaqueiros?


“Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas,
e elas me conhecem a mim” Jo 10: 14

Numa época em que seminários, cursos e eventos de todo tipo se propõem a discutir modelos de liderança e nos aguçam tanto a vontade de crescermos como lideres, dia desses, à soleira da porta da Rádio, aqui em Portugal, um amigo e filho na fé, gritou por mim dizendo ter tido uma revelação.
Não que eu não creia nas revelações (principalmente depois que as cameras fotográficas passaram a ser digitais) ou que Deus não seja ainda capaz de nos trazer revelações ou luz sobre situações, baseadas em algum princípio encontrado nas escrituras, confesso que fiz piada. Mas a coisa era séria.
Assentado ali, esse meu amigo, um criador de gado em Goiás, observava atentamente a um pastor – cercado pela sua congregação de ovelhas – que costumeiramente costuma trazê-la para alimentar-se numa área verde (e cheia de oliveiras) mesmo do outro lado da nossa rua.
Pois bem, o Lazinho (como se chama o amigo) gritou: “rapaz, nós temos sido vaqueiros!”. E emendou: “temos sido mais vaqueiros do que pastores!”.
Essa era a revelação e digamos, dos céus, sem sombra de dúvida.
Começamos então a compartilhar e a reconhecermos com toda a humildade que a tentação em sermos, não pastores, mas vaqueiros, tem sido muito grande.
Cheguei a pensar que, por conta da nossa tradição, da terra de onde vim, no interior de São Paulo, incipiente na criação de ovelhas – as de pelo e que balem – não as de Bíblia em baixo do braço - é que os versos bíblicos sobre a figura do pastor, do rebanho das ovelhas nos exijam tanto esforço e muita abstração para que os compreendamos. Nós brasileiros, somos o povo com o maior rebanho bovino do planeta e essa cultura nos passa ao largo. Mas não. A coisa não é nova e nem tão absurda. Mesmo por essa bandas mediterrânicas onde me encontro hoje exilado por Deus (onde em todo o campo fora dos grandes centros há um pastorinho com o seu rebanho), o engano - e a tentação - é a mesma: Temos teimado em ser vaqueiros e não pastores no cuidado do rebanho do Pai. E nisso não faltam pauladas só nos pastores institucionalizados das nossas igrejas, mas aos pastores-pais, aos pastores-maridos e aos pastores-leigos no cuidado dos outros, os que Deus nos confiou.
Vejamos as diferenças básicas:
Pastores de ovelhas são calmos, cuidam delas na tranquilidade de quem confia na relação que o liga à elas, permitindo com isso que elas andem soltas, livres, enquanto o vaqueiro é o homem do grito, do cuidado quase-exagerado traduzido em cercas (altas, de arame farpado ...e até elétricas!).
Até o verso bíblico em que Jesus diz que o pastor “vai adiante delas, e elas o seguem” deve, seguramente ter mais a ver com o seu exemplo, a referência da sua presença e companhia do que o andar literalmente à frente. Se observarmos bem, os pastores nem precisam se por à frente do rebanho. Basta-lhes a sua presença, a sutil indicação do cajado – ao observá-las, penso que elas se imaginam livres, soltas, guardadas pela lembrança de que há alguém a quem recorrer e que as socorrerá sempre que precisarem. Nos currais, os vaqueiros andam aos berros, com varas a espetar o gado (e muitas dessas, com descarga elétrica!) e até cães para correrem atrás dos que fogem.
Temos sido vaqueiros quando julgamos possuir um rebanho que não é nosso e, ao invés de ganhar-lhes o respeito e o amor, conquistando-lhes o coração, como vaqueiros, usamo-las nos nossos próprios projetos narcisistas, usamos marcá-las a ferro, cercá-las com arames e até usar de tudo para controlá-las. Temos sido vaqueiros quando escondemos a nossa intimidade, as nossas lutas, próprias da nossa humanidade atrás de artifícios de retórica e de poder.
Com isso, negligenciamos o discipulado – onde para além de ensinar o que sabemos, pode-se (e é inevitável) passar aquilo o que somos na intimidade (como o pastor e apóstolo Paulo, que chamava a atenção de Timóteo não para aquilo o que aprendeu, mas para “de quem aprendeu tudo” – 2 Tm 3:14). E olhem que nunca lemos de Paulo nenhuma reivindicação de respeito à sua intimidade, ou privacidade, sempre naturalmente exposta aos olhos das suas ovelhas.
O controle, a lei, só vale quando os relacionamentos são frágeis ou inexistentes e a sua eficácia, nenhuma, dai, as cercas, os limites, a vigilância e tanta história de traições e infidelidade à comunhão.
Como aprendemos de Cristo, “não há amor maior do que alguém dar a sua vida a outros” e isso, evidencia-se na dedicação, no serviço desinteressado e humilde, no abrirmo-nos à contabilidade e aos olhos carentes de referência das ovelhas (e até à sua correção e admoestação quando necessária).
Contra esse tipo de relacionamento, não há ameaça que afaste o rebanhos dos pastores.
Quando há algum tempo atrás, estando eu e a família numa pequena aldeia, num dos pontos mais altos de Portugal, vi (com os meus olhos inexperientes nessa coisa de ovelhas que balem – não as de Bíblia à mão) vários rebanhos se juntando numa pracinha ao centro da comunidade, perguntei a um dos vários pastores como é que ele faria para levar para casa as suas próprias ovelhas, como faria para reconhecer as suas em meio a tantas outras de outros pastores. Ele então, num misto de espanto pela ignorância do estrangeiro e sincera experiência, respondeu: “Isso não me preocupa” e emendou: “Elas sabem quem EU SOU”.

Pescou? E é isso. Pastores, e não vaqueiros do rebanho do Pai!

- Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens. (JO 10:9)